Observou
detidamente a fotografia de um homem de queixo quadrado e olhos azuis em um
porta-retrato pequeno, de metal outrora dourado e agora escuro. Olhou de perto.
Quebrou-se uma das pontas do porta-retrato,
eu posso trazer outro, mas não... mortos não reclamam de nada, pensou. Meu pai, meu pai, murmurou com o olhar fixo
na fotografia.
Lembra,
pai? Lembra quando você me chamava de neguinha feia? Lembra disso? Pois eu não
esqueci. Você dizia com sua voz altissonante, parecida com a voz do homem que
vendia sonhos de nata e passava pelo bairro pobre, de chão batido, gritando sob
o sol do meio-dia: Sonhos, sonhos baratos.
.jpg)
Neguinha
feia! Menina, você está cada dia mais negra, mais magra e mais feia, repetia aos
gritos, cuspindo saliva pelos cantos da boca. E que vergonha você sentia da
Neguinha feia, não é verdade, pai? Tinha vergonha sim. Tinha vergonha de
apresentar sua filha negra a seus parentes de olhos azuis e cabelos mais ou
menos loiros. Mamãe colocava um vestidinho branco e minhas primas loiras riam
de mim, dizendo: Parece mais negra ainda. Parece piche. Parece noite escura.
Parece jabuticaba. E você escutava e ria. Ria de mim.
Que
pai honesto ri da própria filha? E depois, como bom homem, ainda enchia a boca
de saliva ao dizer: Não sou racista, casei com uma negra. Casou sim, foi porque
eu ia nascer e o avô pediu ajuda ao Xangô. Foi porque você estava com febre
alta e não sabia nem o que dizia. Foi porque o tio te arrastou até a igreja e
ordenou ao padre que fizesse a cerimônia!...
Forte
o tio Chico. Todo mundo o respeitava. Todos fugiam quando seus olhos se
incendiavam de raiva. Até você teve medo dele, pai. Até você!... E hoje você
não tem mais medo de nada. Está ai, na terra desse cemitério, em um túmulo sem
flores. E eu vim para te visitar, pai. Trouxe algumas flores só para demonstrar
que sou boa filha.
Escutou
alguém chorar. Virou a cabeça. Uma mulher estava diante do túmulo de mármore
branco, bem perto dela. Não sou a única que sofre, murmurou.
Trouxe
flores, sim. Mas eu não vim pelas flores, não! Estou aqui para dizer que não
precisa mais ter vergonha de mim pai. Pois agora eu sou uma das vozes do Brasil,
pai. Você morreu sem saber, que pena que morreu sem saber. Mas eu vou te
contar, eu herdei a voz da avó Eugênia, a primeira mulher do avô. Aquela que
fugiu com o mestre-sala de escola de samba. Eu sou uma cantora negra, pai.
Todos gostam de mim. Enquanto minhas
primas brancas trabalham de segunda a sábado, vendendo roupas chiques para as
branquelas ricas, eu sou famosa, pai. Eu vou comprar os vestidos que elas
vendem e que não podem comprar. E elas me olham com inveja. Elas têm inveja da Neguinha feia, da Neguinha
de cor de piche. Sabe por que, pai? Porque eu sou uma guerreira. Eu triunfei pai.
Eu sou negra e vencedora e tenho tanto orgulho disso!... É isso aí, pai. Eu sou negra e tenho orgulho
de ser negra.