quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Lançamento: Escrevendo Crônicas: Dicas e Truques



Crônica é um gênero literário que desperta o interesse das pessoas por falar de assuntos quotidianos. O Instituto Memória lançará em 29 de outubro, 19 horas, no Palacete dos Leões, Av. João Gualberto, 530, Alto da Glória, Curitiba, o livro "Escrevendo crônicas: dicas e truques. Entrada franca.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

NEGUINHA (conto de Isabel Furini)

                        Sentou-se no lado direito do túmulo. O dia estava ensolarado. Não era dia para ir ao cemitério, pensou. Sol é bom para passeio, para praia, mas ela estava ali,  colocando flores recém-compradas em um vaso grande, de porcelana pintada de azul e sem água. As flores não iam durar muito. Mas que  importa?

Observou detidamente a fotografia de um homem de queixo quadrado e olhos azuis em um porta-retrato pequeno, de metal outrora dourado e agora escuro. Olhou de perto.  Quebrou-se uma das pontas do porta-retrato, eu posso trazer outro, mas não... mortos não reclamam de nada, pensou.  Meu pai, meu pai, murmurou com o olhar fixo na fotografia.

Lembra, pai? Lembra quando você me chamava de neguinha feia? Lembra disso? Pois eu não esqueci. Você dizia com sua voz altissonante, parecida com a voz do homem que vendia sonhos de nata e passava pelo bairro pobre, de chão batido, gritando sob o sol do meio-dia: Sonhos, sonhos baratos.

Neguinha feia! Menina, você está cada dia mais negra, mais magra e mais feia, repetia aos gritos, cuspindo saliva pelos cantos da boca. E que vergonha você sentia da Neguinha feia, não é verdade, pai? Tinha vergonha sim. Tinha vergonha de apresentar sua filha negra a seus parentes de olhos azuis e cabelos mais ou menos loiros. Mamãe colocava um vestidinho branco e minhas primas loiras riam de mim, dizendo: Parece mais negra ainda. Parece piche. Parece noite escura. Parece jabuticaba. E você escutava e ria. Ria de mim.

Que pai honesto ri da própria filha? E depois, como bom homem, ainda enchia a boca de saliva ao dizer: Não sou racista, casei com uma negra. Casou sim, foi porque eu ia nascer e o avô pediu ajuda ao Xangô. Foi porque você estava com febre alta e não sabia nem o que dizia. Foi porque o tio te arrastou até a igreja e ordenou ao padre que fizesse a cerimônia!...

Forte o tio Chico. Todo mundo o respeitava. Todos fugiam quando seus olhos se incendiavam de raiva. Até você teve medo dele, pai. Até você!... E hoje você não tem mais medo de nada. Está ai, na terra desse cemitério, em um túmulo sem flores. E eu vim para te visitar, pai. Trouxe algumas flores só para demonstrar que sou boa filha.

Escutou alguém chorar. Virou a cabeça. Uma mulher estava diante do túmulo de mármore branco, bem perto dela. Não sou a única que sofre, murmurou.

Trouxe flores, sim. Mas eu não vim pelas flores, não! Estou aqui para dizer que não precisa mais ter  vergonha de mim pai.  Pois agora eu sou uma das vozes do Brasil, pai. Você morreu sem saber, que pena que morreu sem saber. Mas eu vou te contar, eu herdei a voz da avó Eugênia, a primeira mulher do avô. Aquela que fugiu com o mestre-sala de escola de samba. Eu sou uma cantora negra, pai. Todos gostam de mim.  Enquanto minhas primas brancas trabalham de segunda a sábado, vendendo roupas chiques para as branquelas ricas, eu sou famosa, pai. Eu vou comprar os vestidos que elas vendem e que não podem comprar. E elas me olham com inveja.  Elas têm inveja da Neguinha feia, da Neguinha de cor de piche. Sabe por que, pai? Porque eu sou uma guerreira. Eu triunfei pai. Eu sou negra e vencedora e tenho tanto orgulho disso!...  É isso aí, pai. Eu sou negra e tenho orgulho de ser negra.
Isabel Furini é escritora e poeta premiada.


A POLÊMICA DOS BEST- SELLERS!..

       
Ler ou não ler best-sellers? Eis a questão!... A polêmica é longa e acirrada. Amantes de detratores dos best-sellers se enfrentam nas arenas dos pontos de vista.

Há pessoas que sentem orgulho em ler best-sellers, outras sentem vergonha e o escondem no quarto para deleitar-se lendo algumas páginas antes de dormir, e ainda há aqueles que odeiam os best-sellers, mas odeiam mesmo!... Jamais lêem.

Alguns leitores declaram que esses livros ocupam espaços nas prateleiras das livrarias que poderiam ser ocupados por livros de maior valor literário, pensam que se não existissem os best-sellers as pessoas passariam a ler Ulisses ou Grande Sertão Veredas. Estamos de acordo em que os livros populares ganham os lugares mais visíveis e destacados das livrarias e que, se fossem colocados outros livros nesses locais, ficariam em destaque, o que aumentaria suas chances de vendas. Mas também devemos entender que existem vários tipos de leitores.

Uma pessoa acostumada a uma leitura rápida e descomprometida como um best-seller, raramente vai gostar de livros com maior profundidade, como o Ulisses de Joyce ou Vidas Secas de Graciliano Ramos. O importante é entender que as pessoas procuram coisas diferentes quando escolhem livros de ficção, uns procuram conhecimentos sobre a vida, análise profunda de personagens e de situações, enquanto outros só querem um momento de entretenimento, algo que os tire da monotonia do cotidiano.

Luiz Fernando Veríssimo disse, em uma palestra, com seu humor característico, que é bom as pessoas entrarem nas livrarias para comprar best-sellers, pois, de repente, um livro dele pode estar ao lado e a pessoa pode adquiri-lo também.

O best-seller é só leitura para entretenimento e, desse ponto de vista, é um passatempo sadio. Na realidade, parece que a alternativa é ler best-seller ou nadinha. A maioria está de acordo em que a primeira opção é a melhor.

Porque ler é sempre uma maneira de enriquecer nosso mundo, você não acha?

Isabel Furini é escritora, palestrante e poeta premiada. Contato (41) 8813-9276.

 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

PALAVRAS DA ARTISTA E DA DIARISTA

            Era uma reunião como tantas outras. Mulheres falando, homens grudados aos copos de cerveja, jovens falando de música e crianças correndo. Numa dessas conversas escutei alguém dizer a uma senhora idosa: “Somos um grupo de artistas plásticas que nos reunimos uma vez na semana, e algumas também escrevem poesia”. Gostei da ideia, fiz várias perguntas e ela respondia com entusiasmo. - Pintam pior do que macacos - disse o marido dela rindo.  Ele é um piadista, esclareceu a mulher.        

            Na terça-feira fui até o atelier. Subi a escada e no primeiro andar vi várias portas fechadas. Qual seria?  Perguntei a um rapaz que caminhava pelo corredor com uma carta na mão. - Não conheço artistas plásticas neste prédio, respondeu.

            - Elas se reúnem só uma vez na semana.
            - Ah! Você disse artistas? Artistas! Hahaha. É um grupo de velhas gagás. É na última porta, do lado direito.
            Caminhei até o final do corredor, bati à porta e abriram, lá estavam as idosas. Desculpem, lá estavam as artistas plásticas. Nesse momento a frase do marido da Teresa, “pintam pior do que macacos”, não me pareceu uma piada, pareceu-me um simples comentário. E a declamação de poemas... Céus! Melhor nem falar. Olhei para a professora de pintura, tinha um sorriso de bonomia no rosto, como quem diz: fazer o quê? A professora disse que o importante na terceira idade é fazer algo para manter-se ativo, para manter-se jovem. Elas não eram artistas, mas se sentiam artistas.

            Eu acho interessante a pessoa dedicar o seu tempo a praticar alguma arte. Mas penso que um pouco de humildade daria brilho a esses quadros, porque é muita pretensão falar “somos um  grupo de artistas plásticas que se reúne uma vez na semana”, seria melhor dizer:  somos um grupo de interessadas em arte, ou de aprendizes, ou de alunas de arte. Porque “artista”, essa palavra para mim (talvez seja só para mim) tem uma conotação de certo grau de domínio de alguma das artes, e os trabalhos eram de aprendizes. Essa é minha opinião. Mas como disse minha diarista “opinião é como bunda, cada um tem a sua”.

Isabel Furini é escritora e palestrante. Organizou a antologia Passageiros do Espelho, que será lançada em 26 de julho, as 19:00 horas no Espaço cultural do BRDE Palacete dos Leões, João Gualberto, 530, Curitiba.






Jimmy é um primata que vive no zoológico de Niterói e que curte pintar quadros. Seu trabalho foi exposto na mostra Olhares de um Chimpanzé. A exposição aconteceu na Galeria 52 (Niterói).

Línguas viperinas (Crônica)

Minha amiga J. adora bons restaurantes. E quem não adora?... O problema é que minha amiga gasta a maior parte de seu polpudo salário em restaurantes. Ha quatro meses ele decidiu mudar. Iniciou um regime. Continuava frequentando restaurantes chiques, mas em vez de pedir carnes e massas, começou a se conformar com saladas e alguma carne magra de frango ou de peixe. E os resultados começaram já estavam presente no primeiro mês. Aquele início tímido, poucos notado pelos outros, mas notado pela roupa que passa de apertada a um pouco folgada. E como dá alegria!

Pois bem, amiga ligou, convidou-me para almoçar em um shopping. Nos encontramos lá, olhamos lojas e depois fomos até a praça da alimentação. Ela, orgulhosa, só colocou no prato frango grelhado e salada variada. Na mesa do lado havia uma senhora sentada olhando para o prato de minha amiga. Mexia a cabeça para um lado e para outro com ar de reprovação. O que seria?

De repente, com voz de mãe autoritária dirigiu-se a minha amiga dizendo: “Não adianta querida, já não adianta, não vai dar resultado, você deveria ter pensado antes... agora é obesa não tem mais nada para fazer”. Depois dessa frase maldosa, levantou-se e saiu como de cabeça erguida, orgulhosa de seu ato de maldade.

Minha amiga olhou o prato, observou a própria barriga proeminente, e eu percebi que seus olhos se enchiam de lágrimas.

Tentei animá-la: - Deixe falar, nem se preocupe. E ela secou a lágrimas e sorriu – foi um sorriso forçado.

Antes de sair do shopping comprou um bombom e o deglutiu com prazer. Dias depois, ligou dizendo que não valia a pena fazer regime... só cirurgia de estômago podia ser uma solução. – Mas você estava indo tão bem! Exclamei.

– Não sei não, disse ela, a mulher do restaurante tem razão não regimes não dão resultado.

Minha primeira reação foi dizer que a mulher do restaurante, essa cobra com forma humana, deveria olhar para a própria vida, em vez de meter o nariz onde não é chamada. Eu deveria ter jogado o prato na cabeça dela – falei para minha amiga e ela riu.

Ao desligar fiquei pensando o que ganham essas pessoas de língua viperina que estão sempre procurando humilhar, ofender, e fazer desistir a quem tem um objetivo. Será que antes de dormir contabilizam os danos provocados com suas palavras e gritam:
- Hoje consegui destruir três pessoas. Uauu! Eu sou demais! Qual será o triste dividendo que essas pessoas estão ganhando?..

Isabel Furini orienta oficinas literárias no Solar do Rosário -Fone (41)3225-6232.
É autora de "O Livro do Escritor" da editora Instituto Memória.

Um quadro do famoso Botero

Morei na Colômbia entre 1975 e 1980. Eu ministrava aulas na cidade de Medellín, e lá tive oportunidade de conhecer várias pessoas interessantes. Uma delas pintava por hobby, como bem ela dizia: "Seu objetivo era sentir-se bem; não queria participar de concursos nem expor suas obras, pois isso a deixaria preocupada". Já a sua amiga tinha o hobby de viajar. As duas chegavam cedo para aulas, e tínhamos a oportunidade de conversar. Elas estavam sempre de alto-astral.

Um dia, a artista plástica disse que sua amiga havia feito uma burrice da qual sempre se arrependia. A outra riu e contou o fato. Quando era solteira, ela foi vizinha do Fernando Botero, o grande pintor colombiano, cujo estilo único é chamado de "boterismo", e consiste em dar volume às figuras. Elas são desproporcionadas se a compararmos com pessoas e objetos reais, mas têm simetria entre elas. Todos os personagens dos quadros são obesos, mulheres, homens, crianças e até os animais, gatos, cavalos e outros.

Pois bem, naquela época o artista era um iniciante. Um dia, falando com Botero na porta da casa, ela comentou que naquela semana era o seu aniversário. Ele, muito generoso, disse que a presentearia com um quadro. Minha aluna, que não gostava dos quadros do novato, desculpou-se alegando que não tinha espaço na sala para colocar o quadro. Botero retrucou que podia colocar em qualquer lugar da casa, mas ela se justificou que tinha falta de espaço e que sua mãe estava pensando em reformar a casa.

– Como eu sou burra! – disse ao terminar a história. Se eu tivesse aceitado esse quadro a que preço poderia vendê-lo agora que ele é famoso?

Essa lição é muito interessante. Nunca sabemos quando um artista triunfará ou desistirá, ficará famoso ou cairá no esquecimento.

Aprendemos uma lição: nunca desprezar a obra de um iniciante, com o tempo ele pode ser um novo Botero.

Isabel Furini é escritora e palestrante. Autora de "O Livro do Escritor" da editora Instituto Memória. Contato:(412) 8813-9276, e-mail: isabelfurini@hotmail.com
Quadro de Fernando Botero.

sábado, 10 de agosto de 2013

Exposição "Don Quijote de la Mancha" no Instituto Cervantes de Curitiba

Exposição de Arte e Literatura

"DON QUIJOTE DE LA MANCHA"

Curadoria: Carlos Zemek


Abertura: 14 de agosto/13 – 19 horas .

Local: Instituto Cervantes -  Rua Ubaldino do Amaral, 927 - Alto da Glória, Curitiba.

O curador Carlos Zemek, nesta oportunidade, escolheu o famoso personagem “Don Quijote de la Mancha”, criação do genial escritor espanhol Miguel de Cervantes. O local escolhido foi o Instituto Cervantes, rua Ubaldino do Amaral, 927, Alto da XV, Curitiba.
 Os artistas trabalharam a visão pessoal do livro. Os moinhos de vento são destaque de várias telas, mas também está presente o amor de Don Quixote pela bela Dulcineia e a visão da dança espanhola como reveladora do espírito lúdico e idealista do Quixote.
Carlos Zemek reúne trabalhos de artistas plásticos, fotógrafos, poetas e escritores, além de um de dança flamenca. O convidado especial é reconhecido artista Rogério Dias, quem já tem vários quadros inspirados nesse personagem.
Foram convidados também os artistas plásticos: Alexandre Bozza, Carlos Zemek, Celia Dunker,  Ivaní Silva, J. Bonatto,  Mercedes Brandão, Neiva Passuelo, Sandoval Tibúrcio, Valéria Sípoli e Vanice Ferreira.
Da área de litertura são expostos poemas com arte digital de: Ally Simões, Eduardo Bettega, Eliziane Nicolao, Elizabeth Inêz Espinosa, Isabel Furini, José Feldman, Lindsay Colle, María Manetti,Willians Mendonça. O convidado especial para realizar a leitura dos poemas é o ator de teatro e televisão Gerson Delliano.
A dança flamenca estará a cargo das professoras do Instituto Flamenco Brasileiro de Arte de Cultura de Curitiba. Também foi convidado o fotógrafo Neni Glock.
Carlos Zemek afirma que é no evento é trabalhado o espírito idealista.

Título da exposição “Don Quijote de la Mancha”
Vernissage: 14 de agosto, 19 horas.
Local: Instituto Cervantes, rua Ubaldino do Amaral, 927. Curitiba. 
Entrada franca



sexta-feira, 26 de julho de 2013

ESCÂNDALO NO PRÉDIO (Crônica)

As mulheres do prédio estavam reunidas na recepção. Todas falando ao mesmo tempo. Esperavam a síndica. Ela chegou minutos depois. Calmamente perguntou qual era a causa daquela agitação toda.

- O primeiro andar tem um grande terraço... - disse dona Manoela.

- E sempre alguém está tomando sol nesse terraço! - enfatizou Vanessa, que estava sentada com a filha de dois anos no colo.

- Não tem nada de errado tomar sol no terraço. Isso não é proibido - disse a síndica.

- Conte, conte, dona Cidinha - incentivou-a Manoela.

- Mas hoje eu vi... Eu estava olhando pela janela, não estava espionando, não.  Hoje eu estava olhando inocentemente pela janela quando vi... - dona Cidinha cobriu o rosto com as mãos e disse descendo a voz: - Vi um homem nu tomando sol no terraço do primeiro andar.

- Era seu Inácio? - perguntou Rosalba, uma antiga moradora.

- Aquele velho contador aposentado tomando sol nu no terraço? - perguntou a síndica.

- Que horror! - disse gritou Manoela.

- Não! Não era ele, não! Era esse sobrinho, esse jovem alto e moreno, parecido com o Rodrigo Santoro.

- Ahhhh! Uauuuu! E outras exclamações surgiram dos lábios das mulheres.

- Aquele rapaz estava tomando sol nu no terraço? Por favor, dona Cidinha, a próxima vez que isso acontecer, me chame imediatamente - disse a síndica - eu quero tirar algumas fotografias daquele gatão nudista!


Isabel Furini é palestrante e escritora, orienta a Oficina Como Escrever Livros no Solar do Rosário. 
e-mail: isabelfurini@hotmail.com

quinta-feira, 25 de julho de 2013

MUDANDO A PERSPECTIVA


         Em literatura há uma técnica chamada “mudança de perspectiva”. Os personagens falam, ou pensam, ou algo acontece, e o leitor descobre uma nova perspectiva de um assunto. É muito interessante descobrir que isso é simplesmente uma maneira de levar a visão do homem para o universo literário. Muitas vezes nossa perspectiva sobre um assunto muda ao conhecer algum fato, ou descobrimos que sustentávamos uma visão errada sobre uma pessoa.
         Lamentavelmente o ser humano não tem raio-x para ver os pensamentos dos outros. Somos facilmente enganados pelas aparências. Um rosto bondoso pode ser na realidade uma máscara para não despertar suspeitas. O sorriso pode esconder raiva ou ressentimento. O olhar doce pode não ser espontâneo, pode ser resultado de algum curso de teatro. A elegância nas palavras, às vezes, nasce da artimanha de seduzir os outros. Além disso, temos os chamados “sintagmas significativos”, ou seja, palavras ou frases que podem ser usadas com a finalidade de manipular os outros.
         Em um mundo no qual a imagem impera, nunca sabemos se quando alguém fala de seu passado está revelando uma verdade escondida, ou está criando uma imagem para ser aceito, amado ou aplaudido. Só conseguimos ver a cor da pele, dos olhos, dos cabelos, não conseguimos saber quais são as intenções das pessoas.
E, como nada é tão horrível ao mundo contemporâneo quanto à honestidade, usamos máscaras. Se as coisas continuarem desse jeito, corremos o perigo de chegar em casa depois de uma festa na qual mentimos – desculpem, fomos gentis e dissemos que os doces dos quais não gostamos eram maravilhosos, excelente o livro recém lançado por algum autor que desprezamos em silêncio, além de elogiar o horrível vestido da anfitriã, chegar em casa e caminhar até o espelho para tirar a máscara e descobrir que sob essa máscara há outra. Tirar a segunda máscara e descobrir mais uma... Ao final, quem poderá dizer que conhece o seu rosto autêntico?


Isabel Furini é escritora e poeta premiada. Autora do livro de poemas “Os Corvos de Van Gogh”. Contato: isabelfurini@hotmail.com

sábado, 20 de julho de 2013

AGENTE SECRETO OU TRAFICANTE??? (Crônica)

O vendedor bonitão dizia “eu sobrevivo dos seios das mulheres”. E era verdade, vendia sutiã. O rapaz inteligente dizia que era garoto de programas... de programas de computador... esclarecia.

Mas um dos casos mais interessantes que escutei foi contado por Janice. Janice conheceu Bento em um barzinho. Ela é secretária e perguntou qual era o trabalho dele. Bento só respondeu: eu faço o trabalho sujo, alguém tem que fazer.

Janice ficou impactada com a resposta e pelos músculos do rapaz. Saíram várias vezes. Ele sempre levava uma mala preta, pequena, de couro e Janice se perguntava que tipo de arma levaria lá dentro. Seria agente secreto ou traficante?

Janice convidou-o a jantar na sua casa. Entraram e Janice apresentou sua mãe. Dona Laurita, encabulada, desculpou-se dizendo que só havia feito um lanche, pois estava esperando o rapaz da desentupidora. Banheiro entupido é uma tristeza – lamentou-se.

Bento, com um sorriso triunfal, abriu sua maleta preta de couro, tirou luvas compridas de borracha e, colocando-as, falou: Não se preocupe, senhora, pois eu já falei para sua filha, eu faço o trabalho sujo. E desentupiu o banheiro.
Isabel Furini é escritora, palestrante e educadora - 

e-mai: isabelfurini@hotmail.com

O PADRE OU O PAI? (Crônica)

            Meu amigo Orlando, que também é argentino e professor, mora em São Paulo onde ministra cursos e palestras. Uma noite, estava ministrando uma palestra e bem na primeira fileira estava sentado um senhor de gravata preta com uma figura enorme de Mickey Mouse em amarelo, que dormitava e havia deixado cair a cabeça de lado. Quando o orador levantava a voz, o homem abria os olhos trabalhosamente e voltava a fechá-los.
            Meu amigo ficou nervoso e, ao falar a biografia de Freud, errou e disse duas vezes “o padre de Freud”, em vez de “o pai de Freud”. Acontece que em espanhol a palavra “padre” tem dois sentidos: de pai e de pároco de igreja. Depois de dizer o padre de Freud pela terceira vez, o homem da primeira fileira abriu os olhos e empertigou-se, meu amigo continuou, mas o homem interrompeu a palestra exclamando: Minha nossa! Isso quer dizer que Freud era filho de um padre? Mas que história interessante! Conte mais, professor.
            Orlando, rindo, desculpou-se, pois havia errado. Esclareceu que a família de Freud era de origem judaica, mas para ele foi muito divertido perceber que o homem havia acordado e ficado atento ao resto da palestra.
Isabel Furini é escritora e poeta premiada - e-mail: isabelfurini@hotmail.com

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Você tem PRECONCEITOS???

Estamos na época em que as pessoas estão tomando consciência de que preconceitos ofendem os outros e não têm fundamento. Muito destrutivo é o preconceito racial. Essa postura absurda de medir as pessoas pela cor da pele.

Outro preconceito é que ser gay é pecado ou doença. A escolha sexual, como a escolha política, religiosa ou profissional, é um direito. As paradas gays, filmes e novelas ajudam as pessoas a diminuir o preconceito.

Existem outros preconceitos menos visíveis, por exemplo, o preconceito contra ateus. O apresentador Datena exteriorizou em um programa de TV, há alguns anos, o seu preconceito, dizendo que “ateus são pessoas sem limites, por isso matam, cometem essas atrocidades”. Mas temos exemplos de pessoas que frequentam igrejas e cometem crimes como, por exemplo, Elize Matsunaga, que matou e esquartejou o seu marido, o dono da Yoki. Muitos fanáticos religiosos também matam em nome de Deus. Ninguém é assassino só por ser ateu, como ninguém é santo só por frequentar uma igreja.

Outro preconceito presente na sociedade contemporânea é contra pessoas obesas. Obesidade é vista como sinônimo de vida não saudável. Uma vizinha que é professora foi chamada pela diretora da escola para falar sobre “o excesso de peso, pois não é saudável”. A professora perguntou-lhe: “Será que os magros não morrem? Só morremos os gordos?”.

O importante é entender que os preconceitos discriminam pessoas, ofendem, ferem e prejudicam. Gays e héteros, gordos e magros, lindos e feios, ateus e religiosos, somos todos humanos. Simplesmente humanos.

Isabel Furini é escritora e orienta oficinas de escrita literária. e-mail: isabelfurini@hotmail.com

CARÊNCIA EMOCIONAL - Arma de dois gumes?

Quando qualquer discussão começa a tomar caminhos inesperados, não é raro alguma das partes dar o grito de guerra: “Você tem carência emocional”. É a frase pronunciada para demolir o adversário. Daí para frente ele perde terreno, às vezes perde o chão completo, enquanto que a pessoa que usa a frase pode se sentar sobre uma montanha de conforto. A luta já está ganha.

Não importa o que o outro fale, os argumentos dele são nulos. Quem pode dar ouvidos a alguém que fala porque tem carência emocional? A tática é utilizada não só para desqualificar argumentos, mas para desqualificar o argumentador. Uma forma cruel de vencer a luta. Mas é muito interessante porque essa frase de carência emocional no fundo atinge não digamos a todos, mas a maioria das pessoas.

Quem não tem uma carência emocional lá, no fundo, bem guardada? Quem é tão amado quanto quer? Quem é tão popular quanto sonha? Quem conseguiu, realmente, realizar todos os seus sonhos? Tem um amante? Fez cirurgia plástica?  Come demais? Está gordo? Sente-se velho? Tudo isso pode fazer parte da carência emocional. Quer ser famoso? Quer ser o melhor? Quer aplausos? A origem pode ser a mesma. Quer viver uma grande paixão, ser o dono da rua, ser admirado? Carência emocional também.

Reveste-se de milhares de formas. Da necessidade de sentir-se bonito ao desejo de triunfar profissionalmente, do sonho de ter um filho ao sonho de ser famoso em Hollywood. No fundo, o ser humano tem carência, porque o mundo é caleidoscópico, cheio de formas, cores, conteúdos e sonhos irrealizáveis.

Por isso, na próxima vez que em uma discussão alguém triunfante diga que você age desse jeito porque tem carência emocional, responda que ele deveria tirar a máscara de perfeição e olhar para dentro. E tenha certeza, se ele olhar descobrirá em alguma parte da sua mente a “carência emocional”. Afinal até Platão disse que o Amor, o incrível Amor, é filho do Recurso e da Carência. É só ficar sozinho, olhar-se no espelho da verdade e a carência emocional estará lá... gritando muito perto dos ouvidos.

Isabel Furini é escritora e poeta, e-mail: isabelfurini@hotmail.com,
Quadro do artista plástico Carlos Zemek.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

ROSAS (Crônica)



Os anos passaram e o marido de Marisa parecia indiferente, já não mais morria de ciúmes. Até que um dia ele descobriu num canto da lavanderia, rosas vermelhas com um cartão: Amo você. Assinado: “Reginaldo”. Reginaldo? O vizinho? O vizinho está enviando flores para minha esposa? Cretino! João ficou desesperado.  Chegava cedo do trabalho e vasculhava os e-mails do computador buscando algum texto comprometedor.

Um dia encontrou o vizinho sentado no jardim, fumando. João avançou com o punho fechado.  O homem correu para sua casa, mas João, furioso, foi atrás dele. Reginaldo colocou a chave na fechadura, enquanto repetia: Você não entende... não é como você pensa, vizinho. João nem escutou e lhe deu vários socos no nariz.
            
A irmã de Marisa ligou preocupada: “Encontrei sua vizinha fofoqueira, a Ritinha, e ela falou que  seu marido pensa que você tem um amante.”

Marisa, feliz, confessou: “Querida, paguei R$1.000 ao vizinho maconheiro  para que mandasse flores, e mais R$ 2.000 para reconstruir o nariz dele, mas valeu cada centavo, querida.”

Isabel Furini é escritora e poeta premiada. Contato: isabelfurini@hotmail.com


MINICONTO: Beleza?


- Estive no salão de beleza – fala a avó.  A neta olha fixamente a cara da sexagenária e grita: “Eles roubaram o seu dinheiro, vó... roubaram mesmo! 

Isabel Furini é escritora e poeta premiada.

Vânia, a Vaidosa da Turma


            Existem vaidosos em todas as áreas. E como são chatos, não é verdade? Só falam de si mesmo e elogiam a própria obra sem  aceitar crítica nenhuma. Esse é o caso de Vânia,  que participou  de uma oficina de literatura, leu dois ou três livros sobre a Arte de Escrever e lá está ela sentindo-se uma estrela!    
O orientador da turma criticou-a. Uma aluna que participa da oficina e  gosta de discordar para mostrar que existe, lançou a frase fatal: “Ela tem o estilo de Prous". Vaninha parecia flutuar. Era isso!.. orgulhosa, dizia que era de linha proustiana”.  Interessante a afirmação, porque Vaninha nunca lera os livros de Proust.
            O tempo foi passando e a vaidade de Vaninha aumentou. “Eu utilizo o monólogo interior, a narração labiríntica, vejam o foco narrativo da segunda pessoa...  Um dia, um editor visitou a Oficina. Todos tiveram a oportunidade de ler um conto. O editor elogiou o esforço dos alunos e escolheu os contos de Talita para publicação.
            Vaninha sentiu-se ofendida. Eu escrevo igualzinho a Proust - esbravejou. O editor, é preciso dizer que havia lido a obra completa de Proust,  sarcástico, retrucou:
            - Moça, seus contos se parecem com os de Proust como uma azeitona se assemelha com uma melancia!
            Vaninha abandonou a oficina. Mas ainda escreve e segundo suas própria palavras: “até Proust foi rejeitado pelos editores de sua época... um gênio nunca é compreendido...”

Crônica de Isabel Furini - Contato: livrocoruja@yahoo.com.br

segunda-feira, 15 de abril de 2013

POR FAVOR, NÃO MATE SUA DENTISTA

O mundo é complexo, a sociedade consumista e o os pobres humanos não têm descanso, pois correm para poder conseguir não só o “pão nosso de cada dia”, mas dinheiro para pagar o condomínio, água, luz, telefone, gasolina... e até o dentista. Resultado: as pessoas estão cada dia mais estressadas.
Uma vez escutei uma piada na qual o personagem dizia que a coisa mais agradável aos ouvidos é ir ao dentista e escutar a secretária dizer: "O dentista está doente”.

Pois bem, na cidade francesa de Marselha, um idoso de 72 anos foi morto pela polícia depois de ele matar sua dentista de 51 anos. A causa? Problemas com orçamento.

A solução era tão simples. Era só o idoso procurar outro dentista. Por que não fez isso? Porque as pessoas não conseguem pensar em momentos de forte emoção? A raiva, a indignação e o desespero fazem com que os seres humanos cometam atos que nunca cometeriam se tivessem a chance de pensar com calma.

Fica a tristeza de duas vidas perdidas e o recado: por favor, não mate a sua dentista. Se ela é “careira”, procure outro profissional.

Isabel Furini é escritora e poeta premiada. Contato: e-mail: isabelfurini@hotmail.com




sábado, 16 de março de 2013

OS PORTÕES - CONTO DE ISABEL FURINI


OS PORTÕES
            Pegou um gladíolo que sobressaía entre as flores que sua irmã havia espalhado sobre o túmulo e colocou-o no vaso de cerâmica azul com desenhos bucólicos. Depois foi a vez de arrumar os cravos brancos, logo as calêndulas junto com folhas verdes. Sempre gostou de ramalhetes, até fez cursos de ikebana, por isso, nessa tarde de domingo, quando sua irmã Cacilda, sempre impaciente, espalhou as flores sobre o túmulo, rezou uma rápida prece e disse tchau Maria, vou para casa de mamãe, ela nem se preocupou.
Quando terminou de arrumar as flores, o Sol já estava caindo e faltava pouco para que o guarda-noturno do cemitério fechasse os portões. Deveria ter saído com Cacilda em vez de dizer tchau e continuar arrumando as flores.  Por que eu não fiz isso? Por que sou tão detalhista? Pensava enquanto caminhava entre as cruzes e os túmulos em busca de uma saída.
O sol começava a cair e ela, receosa, acelerou o passo. Olhou para os lados. O cemitério ficou deserto e ela lá, sozinha. Começou a sentir um friozinho na barriga. Deu para perceber o formigamento nas mãos, sempre que se assusta tem essa sensação desagradável. Acelerou ainda mais o passo, tentou correr. Não conseguiu. Sempre que sentia medo acontecia a mesma coisa, suas pernas não obedeciam a seu comando. Essas cruzes. Oh! não!..  errei o caminho.  Estava na parte detrás do cemitério, só via um muro pintado de branco. Só isso. Voltou sobre seus passos, túmulos enfileirados e mais túmulos...Seria essa a rua certa? Sentiu medo.
Queria sair e rápido. O sol se escondia no horizonte. Cacilda estava apressada, disse tchau Maria, podia ter me esperado - mas não, nunca me espera, desde criança ela gosta de deixar-me para trás. Ela, por ser a mais velha, sempre teve mais liberdade.  Para onde estou indo? Estou perdida.  Calma, Maria, calma, você conhece este cemitério, já veio aqui várias vezes. Calma, calma. Avançou entre os mausoléus. Ah! Já estava perto de um portão, que sorte!... Queria sair imediatamente dali. Não conseguia correr, mas conseguia caminhar, ao menos isso. Seus pés pareciam presos a terra, seu passo não era tão rápido quanto ela queria e suas pernas tremiam, mas estava indo para frente enquanto as sombras avançavam. Com desespero, viu o muro branco e os portões fechados. Não conseguiria sair. Onde estará o guarda- noturno?
 As sombras se espalharam sobre os túmulos dando ao cemitério um aspecto fantasmagórico. Os mortos eram isso mesmo, mortos. Nada poderiam fazer contra ela, mas mesmo assim ela sentia medo. Devia ter saído com sua irmã. Cacilda sempre fazia visitas rápidas apenas para colocar as flores de qualquer maneira, sem nenhuma arte e rezar uma Ave Maria.
Devia reconhecer a verdade, não sabia o caminho para o portão principal do cemitério e estava anoitecendo. Anoitecendo depressa. As sombras se estenderam e ela aí, caminhando sem cessar. Tentando sair. E o vigia? Olhou suas roupas novas. Nem lembrava quando as havia comprado. Estava tão estressada que nem conseguia lembrar quando ou em que loja comprara essas roupas.  Pena que não tinha o celular com ela. Ela havia esquecido o celular em casa!... Seguramente na mesa de jantar ou talvez no criado mudo. Não tinha nem um espelho. Queria olhar-se no espelho. Que ridículo! Pensou. Querer olhar-se no espelho em um momento desses.  
Aquele mausoléu de mármore branco!.. Desse mausoléu lembrava bem, estava à esquerda do portão principal. Que sorte! O guarda estará lá. Ele abrirá o portão. Que bom. Ele abrirá o portão. Apressou o passo e lá estava o portão.  Suspirou aliviada.
Sob os últimos raios do sol e a lua cheia que começava a aparecer no horizonte, viu o portão, mas ninguém por perto. E o guarda? Avançou até o portão e olhou para os lados. A solução é escalar, pensou. E, determinada, começou a escalar o portão, primeiro colocou um pé na barra inferior da grade e ergueu os braços para segurar na parte superior. Conseguiu elevar-se um pouco. Esforçou-se mais, ergueu os braços novamente e segurou uma das barras horizontais. Já estou perto do topo, que sorte! Mais um esforço e... tocou a barra superior do portão, um pé no ar e o outro pé escorregou antes de poder segurar com as mãos e caiu de costas. Sentou-se rapidamente no chão, não estava machucada,  mas devia iniciar de novo a subida.   O guarda-noturno estará perto? Olhou para os lados. Ninguém. Ficaria aí, agarrada ao portão. Alguém passaria a qualquer momento e a ajudaria. Suas mãos se aferraram às grades altas. Quando criança já havia tocado essas grades, foi no enterro da avó e sempre lhe pareceram muito frias. Mas agora não. Nem sentia a temperatura, ela estava tão fria quanto o portão. As mãos frias e morrendo de medo.
De repente, sons de passos. Um jovem de cabelo loiro transitava pela rua, vinha do bairro em direção ao ponto de ônibus.  No desespero por chamar a atenção do rapaz sacudiu o portão e gritou, gritou com todas suas forças. Viu o rapaz parar em frente do portão, com os olhos arregalados por um segundo, e sair correndo apavorado.
–  Idiota!..  Volte!... Ajude-me a sair daqui.
            –  O que foi moça? – perguntou alguém atrás dela.
            Graças a Deus, o guarda do cemitério a escutara. Voltou-se. O que viu a deixou confusa. Havia inúmeras pessoas atrás dela, homens, mulheres, velhos, jovens, adultos, crianças. Todos olhando o portão. Alguns com tristeza, outros com desespero e outros ainda, com raiva.
Um velho aproximou-se dela.
            –  Você deve ser nova aqui e não conhece as regras. Só podemos olhar para fora, mas não podemos sair. Não podemos sair. Só os vivos podem, só os vivos.
*****
Menção Honrosa no Concurso de Porto Seguro, em 2009.

VIRGINIDADE LEILOADA E LEI DE BONS COSTUMES




(Crônica de Isabel Furini)


Você não acha interessante ver como nossa sociedade contemporânea, como o mundo mudou nas últimas décadas? Estamos acostumados a ver leilões de objetos, obras de arte como quadros e estátuas, móveis antigos, imóveis, enfim, muitas coisas terminam indo para leilão. Os famosos quadros de Bottero e as joias de alguma condessa da Europa.

Já escutamos de pessoas que tiveram que leiloar uma mansão antiga da família herdada com dívidas. Surpreendeu em 2012 a obra "O Grito", de Edvard Munch (1863-1944), vendida por US$ 120.000.000,00 – é a pintura mais cara da história a ser vendida em um leilão. Mas o novo milênio, que não é a beleza que os místicos da Nova Era esperavam, ainda nos reservava uma novidade: nunca havíamos escutado alguém leiloar a virgindade.

Honestamente, eu não sei se leiloar a virgindade é mesmo contra a lei. Alguns acham que é contra “a lei dos bons costumes”, ainda que todos sabemos que “os bons costumes” muitas vezes não passam de uma imagem bonita.

Por exemplo, eu li muitas críticas na internet porque a lei promovendo “bons costumes” foi de autoria da deputada estadual Myrian Rios (RJ), uma moça bonita nos anos 70, que posou nua em fevereiro e julho de 1978 para a revista Ele & Ela, da Bloch Editores. Fotos que não serão publicadas novamente, pois o cantor Roberto Carlos comprou das editoras todos os direitos sobre as fotografias.

Bom, o mundo por um lado quer “bons costumes”, mas por outro adora o livro “Cinquenta tons de cinza”, que de bons costumes não tem nada. E fica a pergunta: será que Catarina Migliorini, 20 anos, que leiloou sua virgindade, pode ser processada por ter infringido a lei?

O leilão publicado na internet teve um lance final R$ 1,5 milhão, feito por um japonês de nome Natsu. Será que isso vai mesmo contra a “lei de bons costumes”? Ou seja, será que vender a virgindade é contra a lei dos “bons costumes” e posar nua não é contra a lei? Por que algumas revistas masculinas continuam expondo a nudez feminina.

Será que podemos imaginar uma nova época, na qual junto com leilões de quadros possamos ler editais de leilão de virgindade? Por exemplo: “Hoje serão leiloados quadros de artistas famosos e depois passaremos ao leilão da virgindade de três moças e um rapaz”. Será que essa época vai chegar mesmo?

sábado, 9 de março de 2013

O poeta - o poetinha (Crônica)


Sempre tem um membro da família que é difícil de aturar, não é? Talvez tenha acontecido com você tentar ser simpático com esse elemento e acabar se dando mal. Vou iniciar pelo início, como convém a uma crônica. Há três ou quatro meses, recebi um e–mail do tio Sabrino. Para animá-lo, fiz um elogio a sua escrita. Foi um elogio breve. Eu não sabia que ia  causar tanta euforia!... No e-mail seguinte, confessou que nunca havia pensado que ele escrevia bem, mas que ficava grato com meu comentário.
            Tudo podia ter acabado por aí... mas não, eu tive a péssima ideia de ajudá–lo. O poeta  Juliano,  enviou–me um poema já traduzido para o espanhol a fim de que eu auxiliasse com a tradução de uma palavra. Só uma palavra. E foi aí que cometi o erro!.. Enviei para  tio Sabrino, que mora em Buenos Aires. Ele ficou feliz, não só corrigiu um verso, ele renovou o poema completo. Destruiu sistematicamente cada estrofe. Alguns acham que rimando bolinho com carrinho, já tem um grande poema. Esse era o  do tio.
            Dias depois, recebi um e-mail do tio com vários poemas, todos de péssimo gosto e uma carta onde agradecia ao Juliano. Corrigir esse poema o havia entusiasmado, havia despertado seu lado poético, que, sejamos honestos, era bem melhor quando estava dormindo.
            Então o tio Sabrino iniciou uma época de criatividade inigualável. Todos os dias enviava algum e-mail com novos poemas, até que eu decidi não responder. Ele ligou por telefone, eu falei que o computador estava com problemas. Ele leu seus poemas no telefone. Dias mais tarde recebi algumas cartas com novos poemas. Todos ruins... Decidi voltar à comunicação via e-mail. Eu  não queria ofender meu tio, mas... ele estava assassinando a Musa da poesia.  Semana passada minha tia ligou, queria que eu agradecesse ao Juliano. Meu tio nunca esteve tão feliz. Ser poeta   dera um novo sentido à sua vida, apesar do assassinato literário, claro...
            Eu não sabia o que dizer até que ontem... ontem mesmo, tio Sabrino ligou desde Buenos Aires. Foi para ler um conto. Feliz, disse que estava escrevendo crônicas e  pensando em  um romance. Escutei, com resignação, o conto insuportável que meu tio havia escrito.  Ah!.. Disse ele antes de desligar, agradeça  ao Juliano... O Juliano... era verdade, Juliano havia inspirado a onda de crimes literários, pois meu tio não era mais um simples assassino de uma Musa, ele se havia convertido em um serial killer.

Isabel Furini, escritora e palestrante, orienta oficinas no Solar do Rosário, Largo da Ordem, Curitiba. 

segunda-feira, 4 de março de 2013

Como Escrever e Publicar livros

Iniciará amanhã, 05 de março, a partir das 19 horas, a Oficina do Escritor. Durante 4 meses, uma vez na semana, os participantes poderão analisar, refletir e debater sobre: Como Escrever e Publicar um Livro, no Solar do Rosário, Rua Duque de Caxias, 04, Centro Histórico, Curitiba.

Informações pelo fone: (41) 3225-6232.
 

sábado, 23 de fevereiro de 2013

OS SEIOS DE DONA RUPERTA

 

OS SEIOS DE DONA RUPERTA


A moradora do 7.º andar, muito faladeira, decidiu arriscar uma cirurgia estética.  Queria diminuir os seios.  Poupou durante alguns meses, enquanto informava a todos os vizinhos sobre sua decisão. Falava da cirurgia dos seios no elevador, nos aniversários, nas reuniões de condomínio. Não tinha ninguém no prédio que não soubesse que  dona Ruperta iria diminuir os seios.

Por fim chegou a data esperada e  dona Ruperta foi, feliz, a “recuperar a esbeltez” segundo suas próprias palavras. Dias depois estava sorridente sentada na recepção do prédio contando ao porteiro e a qualquer vizinho que tivesse paciência para escutá-la, os detalhes da cirurgia e mostrando como tinha ficado “outra, mais moça, mais elegante”.

Sandra voltava de ministrar aulas, um pouco cansada. Sentou-se a lado da dona Ruperta escutando, mais por educação que por interesse, sua conversa mole ...

De repente, Carlinhos desceu as escadas, com um aviãozinho na mão. Movimentou o aviãozinho, fingiu que estava voando, pulou os últimos três degraus, rolou no chão. Depois levantou-se e sentou ao lado da Sandra, na recepção. Olhou para Dona Ruperta que de pé diante do espelho permanecia admirando seu novo visual e autoelogiando-se: “Minha figura mudou, estou muito mais jovem, mais magra....”
-  Não importa quanto gastei... comentou encarando a Sandra,  meus seios ficaram tão bonitos que valeu a pena.

Carlinhos aproximou-se dela, olhando-a fixamente.
- É verdade, dona Ruperta, agora ficou sem peito - afirmou o Carlinhos -  mas que bunda, hein?

Isabel Furini é escritora e poeta premiada

A FOFOQUEIRA (Crônica de Humor)


Durante três dias, Raquel, a fofoqueira do bairro, observou a vizinha Valéria que morava na casa antiga, na frente da sua. Rua sem saída. Os vizinhos comentavam que Valéria havia enlouquecido. Fazia três anos que perdera o marido e um ano da morte da mãe.  Valéria passou muito tempo de luto e tristeza. Dois meses atrás, havia se aventurado numa viagem turística ao Nordeste, junto com uma prima. Voltou de bom humor, mas nos últimos dias falava sozinha, gesticulava, ria... Teria alguma visita?
Nesta tarde de sábado, Valéria ria muito.

-  Ela enlouqueceu!.. - gritou  Raquel.  - Venha, querido, venha e olhe... O marido relutou um pouco, mas como a esposa continuava: Venha... venha... ele deixou o jornal e levantou-se, com dificuldade, da poltrona onde estava esparramado. Aproximou-se da janela. Olhe lá, olhe, João, parece que está falando com alguém.. mas Valéria está sozinha desde que a mãe morreu. Falarei com ela. Talvez precise de um médico... de um psiquiatra... de terapia...

 Raquel pegou o telefone:  - Olá,Valéria? Você está bem?

- Feliz com meu noivo nordestino – respondeu rindo Valéria.
Raquel, curiosa, continuou a espiar pela janela. Querido, venha, venha ver... venha, por favor... O marido novamente deixa o jornal de lado e se aproxima a passos vagarosos até a janela.
- Olhe, disse a mulher... Valéria fala e ri... sozinha....
- Sozinha, não! Com seu noivo imaginário, ironiza o marido. Volta a sentar-se na poltrona e pega o jornal.
- Eu vou falar com ela – enfatiza Raquel.

Minutos depois, Raquel aperta com força a campainha.  A porta se abre.
 – Este é Armando, meu noivo... - grita Valéria da cozinha.  Só nesse momento Raquel repara no anão de pijama azul, na ponta dos pés, segurando-se na maçaneta da porta. Sorridente, o anão a convida a entrar. Raquel fica paralisada ao lado da porta.
Armando insiste. - Sente-se, vizinha, pode pegar um pedaço de bolo. Eu mesmo fiz...

- Aqui está o chá mate!... – disse contente Valéria. Coloca a chaleira na mesa, agacha-se e abraça o anão. Ele, sempre sorridente, dá um beijão na boca da namorada. Depois sobe na escadinha que está ao lado da mesa e serve um pedaço de bolo para dona Raquel.

Raquel, sem palavras, senta-se na cadeira e pega o pratinho com o bolo, acanhada, não sabe o que dizer. Os três ficam em silêncio.
Raquel, tentando ser agradável pergunta: - É bolo de laranja?

No dia seguinte, Raquel falava com Adelaide, a velhinha do sobradinho amarelo, quando vê passar, Valéria, de mãos dadas com Armando. Os dois, sorridentes, cumprimentam e continuam seu passeio.

Sem poder conter-se, Raquel murmura para Adelaide: Como ela pode sair com um homem tão pequeno?

A velhinha, muito jocosa, emenda: Segundo ouvi dizer, Armando é pequeno só de estatura, dona Raquel, só de estatura...

Isabel Furini é escritora e poeta premiada.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Oficina Como Escrever Crônicas


SOLAR DO ROSÁRIO
FONE: (412) 3225-6232.


Professora: ISABEL FURINI

Data: Dias 19, 20 e 21 de Fevereiro de 2013
Horário: Das 17h às 19h30
Preço: R$ 220,00  + Inscrição: R$ 35,00
Dia(s) Semana: 3ª, 4ª e 5ª


PÚBLICO ALVO
PÚBLICO ALVO
Todas as pessoas que desejam escrever as histórias escondidas na mente. Aos que desejam explorar a escrita e conhecer os fundamentos da crônica.

METODOLOGIA
. Estudos.
. Leitura, análise e discussão de crônicas
. Exercícios de escrita.
. Leitura dos textos escritos na oficina.

PROGRAMA
I.- a) Estudos: A crônica. Estrutura e modalidades. O escritor como receptor e emissor. O baú da mente. Como explorar palavras, situações e imagens para aumentar a criatividade?
b) Leitura de uma crônica de autor consagrado com análise e debate.
c) Exercício: escrever uma crônica baseado em imagens.
d) Leitura dos textos escritos na oficina.


II.Estudos: Ponto de vista. Construção de personagem. Construção de personagens: retrato, ações e diálogos na crônica.
b) Leitura de uma crônica de autor consagrado. Análise e debate.
c) Exercício: escrever baseado em vivências.
d) Leitura dos textos escritos na oficina.


III.Estudos: A crônica como gênero ágil, divertido e questionador. A mensagem. Modalidades. A crônica como espelho do mundo.
b) Leitura de uma crônica de autor consagrado. Análise e debate.
c) Exercício: escrever baseado em vivências.
d) Leitura dos textos escritos na oficina.

Professora: ISABEL FURINI - Autora de "Eu quero ser escritor - A crônica".odas as pessoas que desejam escrever as histórias escondidas na mente. Aos que desejam explorar a escrita e conhecer os fundamentos da crônica.

METODOLOGIA
. Estudos.
. Leitura, análise e discussão de crônicas
. Exercícios de escrita.
. Leitura dos textos escritos na oficina.

PROGRAMA
I.- a) Estudos: A crônica. Estrutura e modalidades. O escritor como receptor e emissor. O baú da mente. Como explorar palavras, situações e imagens para aumentar a criatividade?
b) Leitura de uma crônica de autor consagrado com análise e debate.
c) Exercício: escrever uma crônica baseado em imagens.
d) Leitura dos textos escritos na oficina.


II.Estudos: Ponto de vista. Construção de personagem. Construção de personagens: retrato, ações e diálogos na crônica.
b) Leitura de uma crônica de autor consagrado. Análise e debate.
c) Exercício: escrever baseado em vivências.
d) Leitura dos textos escritos na oficina.


III.Estudos: A crônica como gênero ágil, divertido e questionador. A mensagem. Modalidades. A crônica como espelho do mundo.
b) Leitura de uma crônica de autor consagrado. Análise e debate.
c) Exercício: escrever baseado em vivências.
d) Leitura dos textos escritos

A GAIVOTA MARIETA (Conto com fotografias)


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

ROSAS (Crônica)


Os anos passaram e o marido de Marisa já não mais morria de ciúmes. Até que um dia 
descobriu num canto da lavanderia, rosas vermelhas com um cartão: Amo você. Assinado: 
“Reginaldo”. 

Reginaldo? O vizinho? O vizinho está enviando flores para minha esposa? Cretino!
 João ficou desesperado.  Chegava cedo do trabalho e procurava nas gavetas por alguma carta, 
por algum sinal de  adultério.

Um dia encontrou o vizinho na rua e avançou com o punho fechado.  O homem correu para sua 
casa,  mas João, furioso, foi atrás dele. Reginaldo colocou a chave na fechadura, enquanto repetia: 
- Você não entende... não é como você pensa, vizinho. João nem escutou e lhe deu vários socos 
no nariz.

            A irmã de Marisa ligou preocupada: “Encontrei sua vizinha fofoqueira, a Ritinha, e ela falou que  
seu marido sabe que você tem um amante.”

Marisa, feliz, confessou: “Querida, paguei R$1.000 ao vizinho desempregado para que mandasse
 flores, e mais R$ 2.000 para a cirurgia, mas valeu cada centavo. Meu marido me ama 
novamente.”
Isabel F. Furini é escritora e palestrante,
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