O mundo é complexo, a sociedade consumista e o os pobres humanos não têm descanso, pois correm para poder conseguir não só o “pão nosso de cada dia”, mas dinheiro para pagar o condomínio, água, luz, telefone, gasolina... e até o dentista. Resultado: as pessoas estão cada dia mais estressadas.
Uma vez escutei uma piada na qual o personagem dizia que a coisa mais agradável aos ouvidos é ir ao dentista e escutar a secretária dizer: "O dentista está doente”.
Pois bem, na cidade francesa de Marselha, um idoso de 72 anos foi morto pela polícia depois de ele matar sua dentista de 51 anos. A causa? Problemas com orçamento.
A solução era tão simples. Era só o idoso procurar outro dentista. Por que não fez isso? Porque as pessoas não conseguem pensar em momentos de forte emoção? A raiva, a indignação e o desespero fazem com que os seres humanos cometam atos que nunca cometeriam se tivessem a chance de pensar com calma.
Fica a tristeza de duas vidas perdidas e o recado: por favor, não mate a sua dentista. Se ela é “careira”, procure outro profissional.
Isabel Furini é escritora e poeta premiada. Contato: e-mail: isabelfurini@hotmail.com
segunda-feira, 15 de abril de 2013
sábado, 16 de março de 2013
OS PORTÕES - CONTO DE ISABEL FURINI
OS PORTÕES
Pegou um gladíolo que sobressaía entre as flores que sua irmã
havia espalhado sobre o túmulo e colocou-o no vaso de cerâmica azul com
desenhos bucólicos. Depois foi a vez de arrumar os cravos brancos, logo as
calêndulas junto com folhas verdes. Sempre gostou de ramalhetes, até fez cursos
de ikebana, por isso, nessa tarde de domingo, quando sua irmã Cacilda, sempre
impaciente, espalhou as flores sobre o túmulo, rezou uma rápida prece e disse
tchau Maria, vou para casa de mamãe, ela nem se preocupou.
Quando
terminou de arrumar as flores, o Sol já estava caindo e faltava pouco para que
o guarda-noturno do cemitério fechasse os portões. Deveria ter saído com
Cacilda em vez de dizer tchau e continuar arrumando as flores. Por que eu não fiz isso? Por que sou tão
detalhista? Pensava enquanto caminhava entre as cruzes e os túmulos em busca de
uma saída.
O
sol começava a cair e ela, receosa, acelerou o passo. Olhou para os lados. O
cemitério ficou deserto e ela lá, sozinha. Começou a sentir um friozinho na
barriga. Deu para perceber o formigamento nas mãos, sempre que se assusta tem
essa sensação desagradável. Acelerou ainda mais o passo, tentou correr. Não
conseguiu. Sempre que sentia medo acontecia a mesma coisa, suas pernas não
obedeciam a seu comando. Essas cruzes. Oh! não!.. errei o caminho. Estava na parte detrás do cemitério, só via
um muro pintado de branco. Só isso. Voltou sobre seus passos, túmulos
enfileirados e mais túmulos...Seria essa a rua certa? Sentiu medo.
Queria
sair e rápido. O sol se escondia no horizonte. Cacilda estava apressada, disse
tchau Maria, podia ter me esperado - mas não, nunca me espera, desde criança
ela gosta de deixar-me para trás. Ela, por ser a mais velha, sempre teve mais
liberdade. Para onde estou indo? Estou
perdida. Calma, Maria, calma, você
conhece este cemitério, já veio aqui várias vezes. Calma, calma. Avançou entre
os mausoléus. Ah! Já estava perto de um portão, que sorte!... Queria sair
imediatamente dali. Não conseguia correr, mas conseguia caminhar, ao menos
isso. Seus pés pareciam presos a terra, seu passo não era tão rápido quanto ela
queria e suas pernas tremiam, mas estava indo para frente enquanto as sombras
avançavam. Com desespero, viu o muro branco e os portões fechados. Não conseguiria
sair. Onde estará o guarda- noturno?
As sombras se espalharam sobre os túmulos
dando ao cemitério um aspecto fantasmagórico. Os mortos eram isso mesmo,
mortos. Nada poderiam fazer contra ela, mas mesmo assim ela sentia medo. Devia
ter saído com sua irmã. Cacilda sempre fazia visitas rápidas apenas para
colocar as flores de qualquer maneira, sem nenhuma arte e rezar uma Ave Maria.
Devia
reconhecer a verdade, não sabia o caminho para o portão principal do cemitério
e estava anoitecendo. Anoitecendo depressa. As sombras se estenderam e ela aí,
caminhando sem cessar. Tentando sair. E o vigia? Olhou suas roupas novas. Nem
lembrava quando as havia comprado. Estava tão estressada que nem conseguia
lembrar quando ou em que loja comprara essas roupas. Pena que não tinha o celular com ela. Ela
havia esquecido o celular em casa!... Seguramente na mesa de jantar ou talvez
no criado mudo. Não tinha nem um espelho. Queria olhar-se no espelho. Que
ridículo! Pensou. Querer olhar-se no espelho em um momento desses.
Aquele
mausoléu de mármore branco!.. Desse mausoléu lembrava bem, estava à esquerda do
portão principal. Que sorte! O guarda estará lá. Ele abrirá o portão. Que bom.
Ele abrirá o portão. Apressou o passo e lá estava o portão. Suspirou aliviada.
Sob
os últimos raios do sol e a lua cheia que começava a aparecer no horizonte, viu
o portão, mas ninguém por perto. E o guarda? Avançou até o portão e olhou para
os lados. A solução é escalar, pensou. E, determinada, começou a escalar o
portão, primeiro colocou um pé na barra inferior da grade e ergueu os braços
para segurar na parte superior. Conseguiu elevar-se um pouco. Esforçou-se mais,
ergueu os braços novamente e segurou uma das barras horizontais. Já estou perto
do topo, que sorte! Mais um esforço e... tocou a barra superior do portão, um
pé no ar e o outro pé escorregou antes de poder segurar com as mãos e caiu de
costas. Sentou-se rapidamente no chão, não estava machucada, mas devia iniciar de novo a subida. O
guarda-noturno estará perto? Olhou para os lados. Ninguém. Ficaria aí, agarrada
ao portão. Alguém passaria a qualquer momento e a ajudaria. Suas mãos se
aferraram às grades altas. Quando criança já havia tocado essas grades, foi no
enterro da avó e sempre lhe pareceram muito frias. Mas agora não. Nem sentia a
temperatura, ela estava tão fria quanto o portão. As mãos frias e morrendo de
medo.
De
repente, sons de passos. Um jovem de cabelo loiro transitava pela rua, vinha do
bairro em direção ao ponto de ônibus. No
desespero por chamar a atenção do rapaz sacudiu o portão e gritou, gritou com
todas suas forças. Viu o rapaz parar em frente do portão, com os olhos
arregalados por um segundo, e sair correndo apavorado.
–
Idiota!.. Volte!... Ajude-me a sair daqui.
– O que foi moça?
– perguntou alguém atrás dela.
Graças a Deus, o guarda do cemitério a escutara.
Voltou-se. O que viu a deixou confusa. Havia inúmeras pessoas atrás dela, homens,
mulheres, velhos, jovens, adultos, crianças. Todos olhando o portão. Alguns com
tristeza, outros com desespero e outros ainda, com raiva.
Um velho aproximou-se
dela.
– Você deve ser
nova aqui e não conhece as regras. Só podemos olhar para fora, mas não podemos
sair. Não podemos sair. Só os vivos podem, só os vivos.
*****
Menção Honrosa no Concurso de Porto Seguro, em 2009.
Menção Honrosa no Concurso de Porto Seguro, em 2009.
VIRGINIDADE LEILOADA E LEI DE BONS COSTUMES
(Crônica de Isabel Furini)
Você não acha interessante ver como nossa sociedade contemporânea, como o mundo mudou nas últimas décadas? Estamos acostumados a ver leilões de objetos, obras de arte como quadros e estátuas, móveis antigos, imóveis, enfim, muitas coisas terminam indo para leilão. Os famosos quadros de Bottero e as joias de alguma condessa da Europa.
Já escutamos de pessoas que tiveram que leiloar uma mansão antiga da família herdada com dívidas. Surpreendeu em 2012 a obra "O Grito", de Edvard Munch (1863-1944), vendida por US$ 120.000.000,00 – é a pintura mais cara da história a ser vendida em um leilão. Mas o novo milênio, que não é a beleza que os místicos da Nova Era esperavam, ainda nos reservava uma novidade: nunca havíamos escutado alguém leiloar a virgindade.
Honestamente, eu não sei se leiloar a virgindade é mesmo contra a lei. Alguns acham que é contra “a lei dos bons costumes”, ainda que todos sabemos que “os bons costumes” muitas vezes não passam de uma imagem bonita.
Por exemplo, eu li muitas críticas na internet porque a lei promovendo “bons costumes” foi de autoria da deputada estadual Myrian Rios (RJ), uma moça bonita nos anos 70, que posou nua em fevereiro e julho de 1978 para a revista Ele & Ela, da Bloch Editores. Fotos que não serão publicadas novamente, pois o cantor Roberto Carlos comprou das editoras todos os direitos sobre as fotografias.
Bom, o mundo por um lado quer “bons costumes”, mas por outro adora o livro “Cinquenta tons de cinza”, que de bons costumes não tem nada. E fica a pergunta: será que Catarina Migliorini, 20 anos, que leiloou sua virgindade, pode ser processada por ter infringido a lei?
O leilão publicado na internet teve um lance final R$ 1,5 milhão, feito por um japonês de nome Natsu. Será que isso vai mesmo contra a “lei de bons costumes”? Ou seja, será que vender a virgindade é contra a lei dos “bons costumes” e posar nua não é contra a lei? Por que algumas revistas masculinas continuam expondo a nudez feminina.
Será que podemos imaginar uma nova época, na qual junto com leilões de quadros possamos ler editais de leilão de virgindade? Por exemplo: “Hoje serão leiloados quadros de artistas famosos e depois passaremos ao leilão da virgindade de três moças e um rapaz”. Será que essa época vai chegar mesmo?
sábado, 9 de março de 2013
O poeta - o poetinha (Crônica)
Sempre tem um membro da família
que é difícil de aturar, não é? Talvez tenha acontecido com você tentar ser
simpático com esse elemento e acabar se dando mal. Vou iniciar pelo início, como
convém a uma crônica. Há três ou quatro meses, recebi um e–mail do tio Sabrino.
Para animá-lo, fiz um elogio a sua escrita. Foi um elogio breve. Eu não sabia
que ia causar tanta euforia!... No
e-mail seguinte, confessou que nunca havia pensado que ele escrevia bem, mas
que ficava grato com meu comentário.
Tudo podia ter acabado por aí... mas
não, eu tive a péssima ideia de ajudá–lo. O poeta Juliano,
enviou–me um poema já traduzido para o espanhol a fim de que eu
auxiliasse com a tradução de uma palavra. Só uma palavra. E foi aí que cometi o
erro!.. Enviei para tio Sabrino, que
mora em Buenos
Aires. Ele ficou feliz, não só corrigiu um verso, ele renovou
o poema completo. Destruiu sistematicamente cada estrofe. Alguns acham que
rimando bolinho com carrinho, já tem um grande poema. Esse era o do tio.
Dias depois, recebi um e-mail do tio
com vários poemas, todos de péssimo gosto e uma carta onde agradecia ao
Juliano. Corrigir esse poema o havia entusiasmado, havia despertado seu lado
poético, que, sejamos honestos, era bem melhor quando estava dormindo.
Então o tio Sabrino iniciou uma
época de criatividade inigualável. Todos os dias enviava algum e-mail com novos
poemas, até que eu decidi não responder. Ele ligou por telefone, eu falei que o
computador estava com problemas. Ele leu seus poemas no telefone. Dias mais
tarde recebi algumas cartas com novos poemas. Todos ruins... Decidi voltar à
comunicação via e-mail. Eu não queria
ofender meu tio, mas... ele estava assassinando a Musa da poesia. Semana passada minha tia ligou, queria que eu
agradecesse ao Juliano. Meu tio nunca esteve tão feliz. Ser poeta dera um novo sentido à sua vida, apesar do
assassinato literário, claro...
Eu não sabia o que dizer até que
ontem... ontem mesmo, tio Sabrino ligou desde Buenos Aires. Foi para ler um
conto. Feliz, disse que estava escrevendo crônicas e pensando em
um romance. Escutei, com resignação, o conto insuportável que meu tio havia
escrito. Ah!.. Disse ele antes de
desligar, agradeça ao Juliano... O Juliano...
era verdade, Juliano havia inspirado a onda de crimes literários, pois meu tio
não era mais um simples assassino de uma Musa, ele se havia convertido em um serial killer.
segunda-feira, 4 de março de 2013
Como Escrever e Publicar livros
Iniciará amanhã, 05 de março, a partir das 19 horas, a Oficina do Escritor. Durante 4 meses, uma vez na semana, os participantes poderão analisar, refletir e debater sobre: Como Escrever e Publicar um Livro, no Solar do Rosário, Rua Duque de Caxias, 04, Centro Histórico, Curitiba.
Informações pelo fone: (41) 3225-6232.
Informações pelo fone: (41) 3225-6232.
sábado, 23 de fevereiro de 2013
OS SEIOS DE DONA RUPERTA
OS
SEIOS DE DONA RUPERTA
A
moradora do 7.º andar, muito faladeira, decidiu arriscar uma cirurgia
estética. Queria diminuir os seios. Poupou durante alguns meses, enquanto informava
a todos os vizinhos sobre sua decisão. Falava da cirurgia dos seios no
elevador, nos aniversários, nas reuniões de condomínio. Não tinha ninguém no
prédio que não soubesse que dona Ruperta
iria diminuir os seios.
Por fim
chegou a data esperada e dona Ruperta
foi, feliz, a “recuperar a esbeltez” segundo suas próprias palavras. Dias
depois estava sorridente sentada na recepção do prédio contando ao porteiro e a
qualquer vizinho que tivesse paciência para escutá-la, os detalhes da cirurgia
e mostrando como tinha ficado “outra, mais moça, mais elegante”.
Sandra
voltava de ministrar aulas, um pouco cansada. Sentou-se a lado da dona Ruperta
escutando, mais por educação que por interesse, sua conversa mole ...
De
repente, Carlinhos desceu as escadas, com um aviãozinho na mão. Movimentou o
aviãozinho, fingiu que estava voando, pulou os últimos três degraus, rolou no
chão. Depois levantou-se e sentou ao lado da Sandra, na recepção. Olhou para
Dona Ruperta que de pé diante do espelho permanecia admirando seu novo visual e
autoelogiando-se: “Minha figura mudou, estou muito mais jovem, mais magra....”
- Não importa quanto gastei... comentou
encarando a Sandra, meus seios ficaram
tão bonitos que valeu a pena.
Carlinhos
aproximou-se dela, olhando-a fixamente.
- É
verdade, dona Ruperta, agora ficou sem peito - afirmou o Carlinhos - mas que bunda, hein?
Isabel Furini é escritora e poeta premiada
A FOFOQUEIRA (Crônica de Humor)
Durante três dias, Raquel, a fofoqueira do bairro, observou a vizinha Valéria que morava na casa antiga, na frente da sua. Rua sem saída. Os vizinhos comentavam que Valéria havia enlouquecido. Fazia três anos que perdera o marido e um ano da morte da mãe. Valéria passou muito tempo de luto e tristeza. Dois meses atrás, havia se aventurado numa viagem turística ao Nordeste, junto com uma prima. Voltou de bom humor, mas nos últimos dias falava sozinha, gesticulava, ria... Teria alguma visita?
Nesta tarde de sábado, Valéria ria muito.
- Ela enlouqueceu!.. - gritou Raquel. - Venha, querido, venha e olhe... O marido relutou um pouco, mas como a esposa continuava: Venha... venha... ele deixou o jornal e levantou-se, com dificuldade, da poltrona onde estava esparramado. Aproximou-se da janela. Olhe lá, olhe, João, parece que está falando com alguém.. mas Valéria está sozinha desde que a mãe morreu. Falarei com ela. Talvez precise de um médico... de um psiquiatra... de terapia...
Raquel pegou o telefone: - Olá,Valéria? Você está bem?
- Feliz com meu noivo nordestino – respondeu rindo Valéria.
Raquel, curiosa, continuou a espiar pela janela. Querido, venha, venha ver... venha, por favor... O marido novamente deixa o jornal de lado e se aproxima a passos vagarosos até a janela.
- Olhe, disse a mulher... Valéria fala e ri... sozinha....
- Sozinha, não! Com seu noivo imaginário, ironiza o marido. Volta a sentar-se na poltrona e pega o jornal.
- Eu vou falar com ela – enfatiza Raquel.
Minutos depois, Raquel aperta com força a campainha. A porta se abre.
– Este é Armando, meu noivo... - grita Valéria da cozinha. Só nesse momento Raquel repara no anão de pijama azul, na ponta dos pés, segurando-se na maçaneta da porta. Sorridente, o anão a convida a entrar. Raquel fica paralisada ao lado da porta.
Armando insiste. - Sente-se, vizinha, pode pegar um pedaço de bolo. Eu mesmo fiz...
- Aqui está o chá mate!... – disse contente Valéria. Coloca a chaleira na mesa, agacha-se e abraça o anão. Ele, sempre sorridente, dá um beijão na boca da namorada. Depois sobe na escadinha que está ao lado da mesa e serve um pedaço de bolo para dona Raquel.
Raquel, sem palavras, senta-se na cadeira e pega o pratinho com o bolo, acanhada, não sabe o que dizer. Os três ficam em silêncio.
Raquel, tentando ser agradável pergunta: - É bolo de laranja?
No dia seguinte, Raquel falava com Adelaide, a velhinha do sobradinho amarelo, quando vê passar, Valéria, de mãos dadas com Armando. Os dois, sorridentes, cumprimentam e continuam seu passeio.
Sem poder conter-se, Raquel murmura para Adelaide: Como ela pode sair com um homem tão pequeno?
A velhinha, muito jocosa, emenda: Segundo ouvi dizer, Armando é pequeno só de estatura, dona Raquel, só de estatura...
Isabel Furini é escritora e poeta premiada.
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