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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

O TERMINAL GUADALUPE E AS SOMBRAS (Conto de Isabel Furini)

O TERMINAL GUADALUPE E AS SOMBRAS (Conto)

18 horas - Cai o sol de inverno, pálido, sem forças.

19 horas – Escurece mesmo.

Os operários da construção civil, trabalhadores domésticos, pessoal da limpeza, vendedores alguns camelôs, professores, poetas e sonhadores, saem de seus trabalhos e correm até o terminal.

Mariazinha, está na fila do Vila Zumbi quando escuta seu nome: "Mariazinha" – alguém acena para ela. Que bom! – murmura a Mariazinha – O gerente vai me dar carona de novo.

– Não faça isso senhora, é pecado. – diz uma mulher com saia e cabelos longos (muito longa a saia, muito longo o cabelo).

Uma mulher de olhos azuis observa de cima para baixo a mulher de saia comprida e solta uma gargalhada. – Cale a boca sua vadia e cuide de sua vida! – fala com autoridade.

Minutos depois chega Aparecida, Cida para os amigos. Estou pensando em fotografar esses dois e ganhar uma grana extra.

Boa ideia, fala a mulher dos olhos azuis.

Um casal de idosos olha para elas e comenta algo sobre falta de ética. – O mundo mudou, meu velho – fala a idosa.

Duas mulheres olham para a igreja do Guadalupe e fazem o sinal da cruz. Um pai fala para seus filhos "é o triunfo do mal, um sinal do fim do mundo". Idiotas pensa uma professora, tira um livro da bolsa e começa a ler. Várias pessoas da fila comentam o fato de o ônibus estar demorando mais que outros dias.

O Apolinário olha as pessoas apinhadas e fala:

Foi tão difícil a estrada!
meus pés estão cansados,
minhas mãos, calejadas,
minha boca muda e sem vida
minha vida sem esperanças.

Ninguém olha para ele. Que indiferença. Ninguém vai dizer nada? Gente. Eu declamei um poema.

Chega o ônibus – Por fim! – exclamo um idoso. As pessoas começam a subir e ocupar os assentos. Alguns viajam de pé, outros preferem esperar o próximo. A fila parece uma cobra gigantesca. Cresce rapidamente.

Apolinário repete:

Foi tão difícil a estrada!
meus pés estão cansados,
minhas mãos, calejadas,
minha boca muda e sem vida
minha vida sem esperanças. 


– Parece que ninguém gostou do poema. Fala o Apolinário.

– Não adianta – comenta Tiago, um amigo dele. Eles não conseguem te enxergar.

– Um momento. Veja essa criança, ele escutou. Sim, ele escutou e está olhando para os lados.

– Olhe, mamãe. Esse cara engraçado, lá no teto.

– Querido, esse é seu amiguinho invisível? – Pergunta a mãe sorridente, encurvando-se sobre a criança e dando-lhe um beijo na bochecha.

– Ele não é meu amigo – fala a criança.

De repente uma forte luz ilumina o lado direito do terminal, mas ninguém repara.

Do lado esquerdo, as sombras crescem.

Do lado direito um homem com roupas brancas tem um sorriso iluminado.

Do lado esquerdo, um homem com roupas cinzas tem um olhar terrível.

Do lado direito, para um ônibus, as pessoas começam a subir. O Zecão abre a carteira. O homem do sorriso iluminado grita:

– Não faça isso Zecão, falei tantas vezes para não fazer isso, meu amigo.

Do lado esquerdo três homens correm. O rapaz de óculos empurra o Zecão, outro tenta pegar a carteira. O Zecão, aperta a carteira. Um dá um soco no nariz dele. Mas o Zecão não solta. O terceiro, passa a navalha pela garganta do Zecão.

O Zecão não solta a carteira. As pessoas gritam. O sangue encharca o terminal. As pessoas pegam os celulares e tiram fotografias do Zecão morrendo. Ninguém chama uma ambulância. É mais importante registrar o momento. Não adianta, esse cara vai morrer mesmo, fala o rapaz de camiseta amarela. Vamos tentar vender essas fotos para algum jornal, murmura o amigo dele.

Uma moça solicita a uma mulher vestida com casaco preto, de olhos esbugalhados, para tirar uma foto dela ao lado do morto. A mulher está a ponto de chorar.

– Por favor, senhora, implora a moça. Uma coisa como esta é difícil de acontecer, fala enquanto penteia o cabelo. – Minhas amigas não vão acreditar. Preciso de uma foto.

A mulher, seca uma lágrima com o dorso da mão e pega a câmara fotográfica.

– Tem que apertar aqui – fala a moça mostrando um botão prateado na parte direita da câmara. A mulher, indecisa, demora um pouco, mas consegue tirar a foto. Na frente a moça, no chão o homem ensanguentado.

– Preciso de várias fotos, por favor, alguma delas vai ficar boa. Fala a moça muito empolgada como se o momento fosse de festa.

Perto dela um rapaz com seus fones de ouvido faz movimento de dança com a cabeça, mas o corpo permanece rígido no lugar.

O homem sorridente que faz parte do globo de luz da direita grita:

– Ei, Zecão. Venha para este lado, homem. Não vai para as sombras, não. Venha!

Os outros seres que estão a seu lado também gritam: – Venha, Zecão, venha.

– Zecão, você está em nossa lista! – grita o homem de olhar terrível que chefia as sombras.

– Está na lista! – grita o coro de sombras desafinado.

O Zecão está confuso. Lembra da esposa e dos filhos, ele quer voltar para casa. Sentar no sofá, assistir TV., comer o arroz com feijão.

O homem de olhar terrível do lado esquerdo mostra partes da vida do morto.

O homem sorridente do lado direito, também mostra partes da vida do morto.

O Zecão sente medo. Impulsivamente, corre para a luz.

O poeta vê a cena e declama um poema:

Essa luz que agora acende,
com milhares de lembranças,
é de um túnel que surpreende.
Quem caminha além do túnel
reencontrará a esperança.

O homem sorridente da bola de luz que está do lado direito grita:

– Poeta, você vai entrar na luz ou vai continuar declamando no terminal?

– Eu também morri neste terminal – fala o poeta. Mas foi de problema cardíaco, há 8 anos. Acho que vou ficar por aqui mesmo. Sempre encontro amigos.

– Sim, vamos ficar mais um pouco – disse o amigo de Apolinário. Os dois pulam sobre o teto de ônibus amarelo que está saindo do terminal e acenam repetidamente com a mão direita.

Isabel Furini é escritora e poeta premiada.
  



Texto escrito na oficina de Ricardo Corona, em 2014, sobre o tema "Terminal Guadalupe". 
Isabel Furini é escritora e poeta.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Milagre de Natal (Conto)

João recebeu uma ligação da editora. A secretária disse que o senhor Eufrásio, o dono, queria vê-lo nessa mesma tarde.

João sentiu seu ego elevar-se sobre os prédios mais altos da cidade. Arrumou-se. Trocou duas ou três vezes de gravata para ver qual lhe dava um ar de homem respeitável. Agora ele era um escritor. Tinha que cuidar de sua imagem.

O editor o recebeu com um sorriso especial… um sorriso que não tinha fim.

– Pode sentar-se, João – disse o senhor Eufrásio – quero enfatizar que raramente um autor estreante como você recebe uma carta de um autor consagrado como Mistópolos… e com tantos elogios! Eu posso dizer que foi um verdadeiro milagre!

– Obrigado, obrigado – disse João, fingindo humildade.

– Foi um milagre, rapaz, um milagre mesmo… um milagre de Natal!..

– Foi?

– Sim, João, foi um verdadeiro milagre, pois Mistópolos morreu em 2005.

Fonte:  FURINI, Isabel Florinda (org.) Contos por 14 Autores. Curitiba: JM Livraria Jurídica, 2008.

O Caçador e o Anjo (Conto)





Era uma vez um jovem Anjo que duvidava da existência dos homens. Ele via uma forma de carne, ossos, sangue, pele, cabelos, uma forma material. Essa forma se movia, alimentava-se e descansava, mas ainda assim o Anjo duvidava de que fosse um homem.

O anjo sabia que os homens são espírito e matéria, e que ele tinha uma missão: cuidar de um deles. Porém, questionava se a forma rude que via era mesmo de um ser humano.




O homem, chamado Estevão, só acreditava no mundo material e ria quando alguém lhe dizia que existiam anjos. Um dia ele foi caçar numa floresta e, correndo sobre o mato úmido atrás de um veado, bateu contra o tronco de uma árvore morta que estava caída no chão. A arma escorregou de suas mãos e um forte estrondo, como o rugido de um leão, agitou a floresta. Rapidamente os pássaros revoaram e animais pequenos voltaram a suas tocas. Ao cair no chão a espingarda disparara e o caçador, com tão pouca sorte, foi ferido.

Estevão, lá deitado, vendo o sangue escorrendo de seu peito, olhou para o céu a fim de pedir socorro e, num raio de sol que penetrava pela copa das árvores, divisou a imagem de um anjo com suas aas brancas. O Anjo, por sua vez, ao ver o homem clamando por Deus, percebeu seu espírito. Ambos se olharam com curiosidade e, em seguida, passaram a se examinar mutuamente

- Você é um Anjo? Então os anjos existem! - disse o homem, admirado.

- Você é um homem? Então os homens existem! - exclamou o Anjo.

Ambos deram-se as mãos. Estevão, no entanto, havia perdido muito sangue e desmaiou. Foi acordar num quarto simples, da casa de um lenhador que por acaso passara por onde ele se encontrava na floresta e, ao vê-lo ferido, decidiu a ajudá-lo.

Desde esse dia o caçador se fez amigo do Anjo, e o Anjo se fez amigo do homem. O humano sentiu-se tão feliz com seu companheiro celeste que deixou de matar outras criaturas. Agora, sua maior diversão era observar os seres da natureza: ondinas e gnomos, silfos e salamandras. Mostrou também seu mundo a seu amigo: casas e fábricas, lojas e clubes, cinemas, teatros e shoppings. Mas o ser celeste preferia as florestas, as montanhas e os mares, o ruído dos ventos, das ondas e dos pássaros.

O homem e o Anjo sempre permaneciam juntos, e os sensitivos que por acaso os viam, detinham-se perplexos a observá-los: ambos caminhavam juntos, tão serenamente que ninguém sabia se o homem era guiado pelo Anjo ou se o Anjo era guiado pelo homem.

Isabel Furini é escritora e poeta premiada, autora de "Os Corvos de Van Gogh", poemas.



O NERD (Conto)

Todas as sextas-feiras, à tardinha, depois de sair do trabalho, a turma reunia-se no bar da esquina para beber e contar piadas. Arnaldo era o rei. Entre cervejinhas e batatas fritas divertia o grupo, contando piadas com o jeitinho de Ary Toledo.

Essa sexta-feira o escritório estava agitado. Na segunda-feira chegaria um cara novo, indicado pela diretoria. Um novo gerente, inteligente, jovem e inovador.

Segunda-feira de manhã, logo cedo, o estacionamento já estava lotado.

Quando a porta do elevador abriu-se… – Meu Deus! Esse cara foi colega de escola… Nós o chamávamos de nerd… nerd… nerd Ental… “nerdental”!.. Porque era um verdadeiro nerd. Gostava de ler história, arqueologia, filosofia, sei lá, essas baboseiras… Esse cara vai ser o diretor da empresa? Quem diria!..

O dia passou rápido. Arnaldo percorreu todas as escrivaninhas falando: Coitado do Zulmar, o novo diretor, tinha medo de falar com meninas. Coitado do Zulmar, o novo diretor…

Três dias depois, os funcionários foram chamados para falar com o diretor. Quando Zulmar foi dar-lhe a mão, Arnaldo esquivou-se e lhe deu dois soquinhos no ombro para mostrar que era o dono da situação. O diretor, em silêncio, pegou a ficha.

– Há cinco anos que você tem o mesmo cargo.

– Sim, mas se me quer nomear chefe estou disposto a chefiar a empresa – brincou.

– A empresa vai entrar um novo ritmo de trabalho. Lamentavelmente, você não se adapta bem a mudanças.

– Não, não é isso “Nerdental”!.. falou rindo Arnaldo.

O diretor não riu. – Pode passar pelo RH.

– Não, escute, só falei Nerdental para lembrar dos velhos tempos. Não precisa…. não… O diretor, impassível, pediu para a secretária chamar outro funcionário. teve que obedecer e falar com o gerente do RH. Lá começaram os problemas.

– Sabe por que está aqui? – perguntou a psicóloga.

– Sim! – gritou Arnaldo – porque esse nerd miserável, cretino, foi nomeado diretor e se acha o dono do mundo e… Arnaldo ficou quase uma hora falando mal do diretor. A psicóloga entendeu que Arnaldo tinha raiva reprimida, não apreciava o triunfo alheio e tinha problemas de relacionamento.

– Com a turma da cerveja, dou-me muito bem! – gritou o Arnaldo para defender-se.

A psicóloga olhou-o atrás de suas lentes grossas. Predisposição para alcoolismo – escreveu em seu caderno de notas.

Arnaldo foi rebaixado para auxiliar. Começou a freqüentar o bar todos os dias, até que chegou ao trabalho bêbado, quase caiu sobre o computador, derrubou alguns papéis… O chefe do setor falou em despedi-lo, mas o novo diretor, com muita calma, explicou que alcoolismo é doença e pediu para o encarregado ser paciente e falar com o R.H para achar uma solução.

A notícia se espalhou, e todos ficaram comovidos. Comentavam que o novo diretor era um homem justo e queria ajudar os funcionários problemáticos.

– Esse cara é um vitorioso, comentavam os funcionários.

Uma noite, Arnaldo chegou à casa de sua irmã, quase bêbado e gritou durante vinte minutos seu ódio contra o novo diretor da empresa.

Paulino, o cunhado, tranqüilo, disse para Arnaldo aceitar a realidade. – Talvez o novo diretor o esteja sacaneando. Se o diretor tem um plano para prejudicá-lo, ele o está fazendo com tanta classe, que ninguém enxerga a verdade. Arnaldo, você deveria seguir o que falam as pessoas bem sucedidas. Não conhece essa frase do famoso empresário Bill G., que está rolando na Internet?

– Não!.. Qual frase?

– Bill G. disse para um grupo de estudantes: “Nunca zombe de um nerd, pois um deles será seu chefe”.

Isabel Furini é escritora e poeta premiada.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

NEGUINHA (conto de Isabel Furini)

                        Sentou-se no lado direito do túmulo. O dia estava ensolarado. Não era dia para ir ao cemitério, pensou. Sol é bom para passeio, para praia, mas ela estava ali,  colocando flores recém-compradas em um vaso grande, de porcelana pintada de azul e sem água. As flores não iam durar muito. Mas que  importa?

Observou detidamente a fotografia de um homem de queixo quadrado e olhos azuis em um porta-retrato pequeno, de metal outrora dourado e agora escuro. Olhou de perto.  Quebrou-se uma das pontas do porta-retrato, eu posso trazer outro, mas não... mortos não reclamam de nada, pensou.  Meu pai, meu pai, murmurou com o olhar fixo na fotografia.

Lembra, pai? Lembra quando você me chamava de neguinha feia? Lembra disso? Pois eu não esqueci. Você dizia com sua voz altissonante, parecida com a voz do homem que vendia sonhos de nata e passava pelo bairro pobre, de chão batido, gritando sob o sol do meio-dia: Sonhos, sonhos baratos.

Neguinha feia! Menina, você está cada dia mais negra, mais magra e mais feia, repetia aos gritos, cuspindo saliva pelos cantos da boca. E que vergonha você sentia da Neguinha feia, não é verdade, pai? Tinha vergonha sim. Tinha vergonha de apresentar sua filha negra a seus parentes de olhos azuis e cabelos mais ou menos loiros. Mamãe colocava um vestidinho branco e minhas primas loiras riam de mim, dizendo: Parece mais negra ainda. Parece piche. Parece noite escura. Parece jabuticaba. E você escutava e ria. Ria de mim.

Que pai honesto ri da própria filha? E depois, como bom homem, ainda enchia a boca de saliva ao dizer: Não sou racista, casei com uma negra. Casou sim, foi porque eu ia nascer e o avô pediu ajuda ao Xangô. Foi porque você estava com febre alta e não sabia nem o que dizia. Foi porque o tio te arrastou até a igreja e ordenou ao padre que fizesse a cerimônia!...

Forte o tio Chico. Todo mundo o respeitava. Todos fugiam quando seus olhos se incendiavam de raiva. Até você teve medo dele, pai. Até você!... E hoje você não tem mais medo de nada. Está ai, na terra desse cemitério, em um túmulo sem flores. E eu vim para te visitar, pai. Trouxe algumas flores só para demonstrar que sou boa filha.

Escutou alguém chorar. Virou a cabeça. Uma mulher estava diante do túmulo de mármore branco, bem perto dela. Não sou a única que sofre, murmurou.

Trouxe flores, sim. Mas eu não vim pelas flores, não! Estou aqui para dizer que não precisa mais ter  vergonha de mim pai.  Pois agora eu sou uma das vozes do Brasil, pai. Você morreu sem saber, que pena que morreu sem saber. Mas eu vou te contar, eu herdei a voz da avó Eugênia, a primeira mulher do avô. Aquela que fugiu com o mestre-sala de escola de samba. Eu sou uma cantora negra, pai. Todos gostam de mim.  Enquanto minhas primas brancas trabalham de segunda a sábado, vendendo roupas chiques para as branquelas ricas, eu sou famosa, pai. Eu vou comprar os vestidos que elas vendem e que não podem comprar. E elas me olham com inveja.  Elas têm inveja da Neguinha feia, da Neguinha de cor de piche. Sabe por que, pai? Porque eu sou uma guerreira. Eu triunfei pai. Eu sou negra e vencedora e tenho tanto orgulho disso!...  É isso aí, pai. Eu sou negra e tenho orgulho de ser negra.
Isabel Furini é escritora e poeta premiada.


sábado, 16 de março de 2013

OS PORTÕES - CONTO DE ISABEL FURINI


OS PORTÕES
            Pegou um gladíolo que sobressaía entre as flores que sua irmã havia espalhado sobre o túmulo e colocou-o no vaso de cerâmica azul com desenhos bucólicos. Depois foi a vez de arrumar os cravos brancos, logo as calêndulas junto com folhas verdes. Sempre gostou de ramalhetes, até fez cursos de ikebana, por isso, nessa tarde de domingo, quando sua irmã Cacilda, sempre impaciente, espalhou as flores sobre o túmulo, rezou uma rápida prece e disse tchau Maria, vou para casa de mamãe, ela nem se preocupou.
Quando terminou de arrumar as flores, o Sol já estava caindo e faltava pouco para que o guarda-noturno do cemitério fechasse os portões. Deveria ter saído com Cacilda em vez de dizer tchau e continuar arrumando as flores.  Por que eu não fiz isso? Por que sou tão detalhista? Pensava enquanto caminhava entre as cruzes e os túmulos em busca de uma saída.
O sol começava a cair e ela, receosa, acelerou o passo. Olhou para os lados. O cemitério ficou deserto e ela lá, sozinha. Começou a sentir um friozinho na barriga. Deu para perceber o formigamento nas mãos, sempre que se assusta tem essa sensação desagradável. Acelerou ainda mais o passo, tentou correr. Não conseguiu. Sempre que sentia medo acontecia a mesma coisa, suas pernas não obedeciam a seu comando. Essas cruzes. Oh! não!..  errei o caminho.  Estava na parte detrás do cemitério, só via um muro pintado de branco. Só isso. Voltou sobre seus passos, túmulos enfileirados e mais túmulos...Seria essa a rua certa? Sentiu medo.
Queria sair e rápido. O sol se escondia no horizonte. Cacilda estava apressada, disse tchau Maria, podia ter me esperado - mas não, nunca me espera, desde criança ela gosta de deixar-me para trás. Ela, por ser a mais velha, sempre teve mais liberdade.  Para onde estou indo? Estou perdida.  Calma, Maria, calma, você conhece este cemitério, já veio aqui várias vezes. Calma, calma. Avançou entre os mausoléus. Ah! Já estava perto de um portão, que sorte!... Queria sair imediatamente dali. Não conseguia correr, mas conseguia caminhar, ao menos isso. Seus pés pareciam presos a terra, seu passo não era tão rápido quanto ela queria e suas pernas tremiam, mas estava indo para frente enquanto as sombras avançavam. Com desespero, viu o muro branco e os portões fechados. Não conseguiria sair. Onde estará o guarda- noturno?
 As sombras se espalharam sobre os túmulos dando ao cemitério um aspecto fantasmagórico. Os mortos eram isso mesmo, mortos. Nada poderiam fazer contra ela, mas mesmo assim ela sentia medo. Devia ter saído com sua irmã. Cacilda sempre fazia visitas rápidas apenas para colocar as flores de qualquer maneira, sem nenhuma arte e rezar uma Ave Maria.
Devia reconhecer a verdade, não sabia o caminho para o portão principal do cemitério e estava anoitecendo. Anoitecendo depressa. As sombras se estenderam e ela aí, caminhando sem cessar. Tentando sair. E o vigia? Olhou suas roupas novas. Nem lembrava quando as havia comprado. Estava tão estressada que nem conseguia lembrar quando ou em que loja comprara essas roupas.  Pena que não tinha o celular com ela. Ela havia esquecido o celular em casa!... Seguramente na mesa de jantar ou talvez no criado mudo. Não tinha nem um espelho. Queria olhar-se no espelho. Que ridículo! Pensou. Querer olhar-se no espelho em um momento desses.  
Aquele mausoléu de mármore branco!.. Desse mausoléu lembrava bem, estava à esquerda do portão principal. Que sorte! O guarda estará lá. Ele abrirá o portão. Que bom. Ele abrirá o portão. Apressou o passo e lá estava o portão.  Suspirou aliviada.
Sob os últimos raios do sol e a lua cheia que começava a aparecer no horizonte, viu o portão, mas ninguém por perto. E o guarda? Avançou até o portão e olhou para os lados. A solução é escalar, pensou. E, determinada, começou a escalar o portão, primeiro colocou um pé na barra inferior da grade e ergueu os braços para segurar na parte superior. Conseguiu elevar-se um pouco. Esforçou-se mais, ergueu os braços novamente e segurou uma das barras horizontais. Já estou perto do topo, que sorte! Mais um esforço e... tocou a barra superior do portão, um pé no ar e o outro pé escorregou antes de poder segurar com as mãos e caiu de costas. Sentou-se rapidamente no chão, não estava machucada,  mas devia iniciar de novo a subida.   O guarda-noturno estará perto? Olhou para os lados. Ninguém. Ficaria aí, agarrada ao portão. Alguém passaria a qualquer momento e a ajudaria. Suas mãos se aferraram às grades altas. Quando criança já havia tocado essas grades, foi no enterro da avó e sempre lhe pareceram muito frias. Mas agora não. Nem sentia a temperatura, ela estava tão fria quanto o portão. As mãos frias e morrendo de medo.
De repente, sons de passos. Um jovem de cabelo loiro transitava pela rua, vinha do bairro em direção ao ponto de ônibus.  No desespero por chamar a atenção do rapaz sacudiu o portão e gritou, gritou com todas suas forças. Viu o rapaz parar em frente do portão, com os olhos arregalados por um segundo, e sair correndo apavorado.
–  Idiota!..  Volte!... Ajude-me a sair daqui.
            –  O que foi moça? – perguntou alguém atrás dela.
            Graças a Deus, o guarda do cemitério a escutara. Voltou-se. O que viu a deixou confusa. Havia inúmeras pessoas atrás dela, homens, mulheres, velhos, jovens, adultos, crianças. Todos olhando o portão. Alguns com tristeza, outros com desespero e outros ainda, com raiva.
Um velho aproximou-se dela.
            –  Você deve ser nova aqui e não conhece as regras. Só podemos olhar para fora, mas não podemos sair. Não podemos sair. Só os vivos podem, só os vivos.
*****
Menção Honrosa no Concurso de Porto Seguro, em 2009.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A FESTA (Conto)


Olhou ao redor. Sua visão parecia turva. Ouvia as vozes dos convidados em matizes cinzentos.  As vozes cada vez mais e mais longínquas. A orquestra tocava música de Ray Conniff.  A mulher loira de cabelos encaracolados que caíam sobre os ombros e ressaltavam sobre o vestido preto, longo, com um laço bordado na cintura, olhava para ela. Essa é a filha do dono, murmurou João. A mulher aproximou-se deles, mas virou a cabeça e só cumprimentou com elegância o casal de velhos que estava do lado direito, com os olhos fixos no quadro de Portinari.

–  Como Portinari soube exprimir a subjetividade do homem!- exclamou o velho.
–  Meu avô foi amigo de Portinari... declarou  a mulher loira que era a rainha da festa. Um homem elegante, de cabelos grisalhos, aproximou-se, segurando um copo de uísque.
– Querida, a esposa do doutor  Sargado perguntou por você.
–  Com licença – falaram os dois em coro.

A orquestra iniciava um blue. Ela viu a filha do dono aproximar-se de uma mulher com vestido de renda verde escuro e uma jóia enorme pendurada do pescoço. Deve valer uma fortuna, pensou.

E ela ficou ali, sem ar, perto da porta, os olhos turvos e uma vontade de chorar. Havia percorrido todos os brechós da cidade – compre um vestido mais ousado, você parece uma velha, havia falado sua filha Carolina. E ela, para sentir-se jovem, havia escolhido um vestido de uma cor muito chamativa, entre o rosa choque e o roxo, ombros descobertos e brincos enormes – a vendedora disse que estavam na moda.

Mas ao entrar no amplo salão do clube viu que só imperavam cores escuras. As jóias brilhavam entre vestidos pretos, verde-escuros, cinza e prata. A anfitriã vestia uma saia preta, longa, de tafetá e uma blusa bordada.
João, murmurou – eu sou a única com um vestido rosa choque, comprado em um brechó!
– Nem se preocupe, você está bem...

Ela teve vontade de chorar. Olhou em silêncio para seu marido, o paletó marrom escuro, barato, não se parecia em nada com os que ostentavam os outros convidados. Fitou novamente seu marido. Parecia tão mal vestido ao lado desses esnobes elegantes. E ela com uma cor berrante. Somos dois palhaços, pensou.
De repente, a música parou. Alguém importante da firma subiu ao palco e começou um discurso. Ao terminar o discurso, vamos embora, murmurou ela, bem perto do ouvido de João.

Olharam-se e,  em cumplicidade, caminharam a passinhos leves para a porta de entrada que estava aberta.
O orador terminou o discurso e a sala vibrou de tantos aplausos.

Mais um discurso.  O casal entreolhou-se. Ambos sorriram e continuaram a mexer-se devagar e silentes como assassinos em filmes de mistério, até chegar à porta. Só ao sair ela respirou fundo.  Caminharam abraçados entre o jardim e os carros. Passaram pelo portão e avançaram pela rua bem iluminada.  Fazia tanto tempo que não se abraçavam. Caminharam unidos por ruas desertas.

– Vamos pegar um táxi? –  perguntou ele.
– Se você quer...
– A próxima quadra é uma avenida, deve ter um...
– E vamos chegar a tempo para assistir a um filme.
– Você pode fazer pipocas no microondas. Assistir a um filme comendo pipocas é o melhor da vida, não é?
– É sim, é – disse ela com voz entrecortada, passando a língua pelos lábios para enxugar uma lágrima.


ISABEL FURINI é escritora e poeta premiada.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

SOMBRAS (Conto)



Eduarda levanta a espada e as sombras retrocedem.

Ela desce um pouco a espada até ficar horizontal em relação a seu próprio ombro. Só isso e as sombras pulam do mostrador dispostas a atacá-la.

Encaram-na. Eduarda, outra vez, aponta a espada para o lugar do coração da sombra maior (a sombra rainha). A sombra rapidamente pula e se esconde no chapéu de feltro do homem de bigode, que está sozinho, sentado à mesa do canto direito diante de uma garrafa de cerveja olhando ao redor em busca de um amigo. O homem mexe um pouco a cabeça, o chapéu fica de lado e a sombra aproveita para entrar. Eduarda a persegue. O homem e o chapéu mudam de mesa. O homem cumprimenta um senhor obeso da mesa junto à janela. As sombras barrigudas rodeiam o gordo, mas ele não se importa, nem nota.

Eduarda avança. Lutar contra sombras é sempre uma tarefa perigosa e desgastante. Sombras são fortes, escondem-se na luz e fortalecem-se na escuridão. Sombras são seres sem dimensão, podem esconder-se em qualquer lugar. Atrás do chapéu, na etiqueta de uma garrafa, na asa da xícara de café, na borda da mesa. Sombras são poderosas e sapecas, como crianças mimadas, dispostas sempre a fazer seus gostos.

O tempo passou e Eduarda continua na tarefa de lutar. As sombras se multiplicam, mas Eduarda resiste firme. Os homens continuam a beber. Os dias sucedem as noites e vice-versa. O mundo rodopia numa máquina de ilusões guiada por uma grande bola dourada chamada Sol.

Eduarda tenta dar uma estocada mortal em uma sombra que procurava esconder-se na borda do copo de cachaça e consegue. A cachaça é amiga das sombras, esconde-as para que os homens não as vejam.

Eduarda persegue a sombra barriguda. Amigos invisíveis a ajudam, alguns atacam as sombras curvas, outros, as sombras retas e outros ainda, as sombras magras. Nessa noite, Eduarda decidiu perseguir a sombra barriguda quando o dono do bar aproximou-se com um copo dizendo: Olhe, velha louca, é para você. Descanse e beba.

Nesse momento Eduarda abriu os olhos, já havia rugas nos cantos dos olhos, nas bochechas, perto dos lábios. Rugas e mais rugas... E não havia conseguido nada, absolutamente nada. As sombras continuavam sendo sombras, brincavam nas paredes, riam do pranto dos bêbados, escondiam-se em botões, chapéus e cadarços de sapatos. Os homens bebiam no bar por diversão ou para esquecer os problemas. Alguns falavam. Outros estavam silenciosos. Alguns jogavam sinuca. Outros observavam, mas ninguém percebia o poder das sombras.

Eduarda pegou o copo de vinho e bebeu lentamente.

Isabel Furini é escritora e poeta premiada. Contato: isabelfurini@hotmail.com



terça-feira, 5 de junho de 2012

SANDOVAL - Conto de Isabel Furini


Sandoval levantou a ponta da camisa vermelha, desabotoada, odorosa e limpou o suor da testa. Tocou uma música antiga no violão. As mesas  estavam vazias, menos uma. Os quatro fregueses aplaudiram com entusiasmo. O de chapéu marrom empurrou uma garrafa com o cotovelo enquanto aplaudia. A garrafa caiu no chão fazendo um estrondo. O dono do bar, que empilhava as cadeiras, parou o trabalho e disse: - Vou fechar, senhores, voltem a noite. Abrimos as 20:00 horas..
Sandoval guardou o violão e colocou o casaco.  Havia bebido com o desespero de um beduíno depois de atravessar o deserto do Sahara.  Parecia um sedento. Uma verdadeira esponja jogando, goela abaixo, copos e mais copos de bebida  Primeiro foi a cervejinha, logo uma garrafa de vinho oferecida por amigos e depois a caipirinha... Eram três da manhã, o bar fechou e o bêbado caminhava  - entenda-se cambaleava - para sua casa. 
      Andou e andou.  Passos lentos, movimentos desengozados, ao virar a esquina tropeçou com  latas de lixo e caiu na calçada. Conseguiu levantar-se.  A Praça Rui Barbosa, pensou, estou perto de casa... Sentiu desejos de urinar. Apoio-se numa árvore e começou a fazer xixi.
  - Ei, você me está molhando.
Sandoval abriu grandes os olhos. Não havia  ninguém por perto a não ser um pato. Por pura diversão começou a molhar o pato. Gritando: Chuva, patinho! Tá chovendo,  chovendo.
 - Seu safado, você deve estar bêbado para fazer isso! - reclamou o pato.
      -Estou... sim.. sim... - afirmou o Sandoval. - Você fala, pato?
      O pato não respondeu.  Começou a choramingar:
     - Ninguém gosta de mim. Assim não dá. Minha vida não vale um tostão. Eu sou um pobre pato sem família. Ninguém me ama.
      - E eu com isso? - perguntou o Sandoval.
      - Nada... você não tem nada com isso. Desculpe  - disse o pato. E começou a chorar. Era um choro de pato, mas dava para entender que estava triste. Era um choro longo, agudo, um Cuaaaaaac.... cuaaaaaac.... entre lágrimas. 
      - Ei, camarada - disse o Sandoval para o pato que afastava-se  em pranto - Quer uma cachacinha? - E tirou uma garrafa pequena do casaco. - É o que uso para apagar as mágoas.
       -  Obrigado, disse o pato -¾ tomando um trago, enquanto o homem assegurava a garrafa -Você é generoso...
       -  Que nada, compadre. Amigo é para essas coisas.
       -  Você é meu amigo??!!!   - gritou admirado o pato abrindo as asas e dando um pulo de alegria.
       -  Claro. Os dois estamos na pior... temos que ser amigos - o bêbado  parecia cuspir as palavras enquanto caminhava - Prazer em conhecer-te pato eu sou o Sandoval, eu sou o rejei... rejitado. Isso. Sou rejeitado, rejeitado da sociedade. Sou um traste qualquer. Minha vida vale menos que a vida de um cachorro, de um... uau... -  deu o nariz contra um poste de luz. Gritou. O pato riu.  -  Minha vida vale menos que a vida de um... poste.
       -  Prazer. Eu sou o Patinho Feio da história de Andersen.
       -  Você é o Patinho Feio, aquele que no final da história se transforma num bonito Cisne.
       -  O mesmo.
       -  E voltou a ser Pato! Gritou Sandoval
       -  Eu me transformo em pato sempre que uma pessoa se transforma em algo feio e esquece tudo o bom que existe dentro dela.
       -  Dentro onde?  -  pergunta o bêbado  -  no estômago ou no coração?
                            -Não seu estômago só tem cachaça - disse o Pato  eu falo de seu coração, cara. Eu falo daquele Sandoval alegre e cheio de entusiasmo. Aquele que sonhava com coisas boas, o amor, a amizade, o triunfo....
     - Se é assim você continuará sendo sempre um Pato, amigo, porque eu... eu sou um fracasso e dentro meu só tenho cachaça. Eu tenho coração de cachaça. Não escutou a canção? -  A saliva escorregava pelos cantos da boca.
-    Não, que canção? - perguntou o Patinho Feio.
O bêbado começou a cantar e dançar, uma mão apoiada na árvore.

Coração de cachaça,Me da um beijo, me abraça,Se você quer dançar,Só precisa escutarEsta música alegre.Revolar..  revolar... Coração de cachaça...Esta música arrasaA negona, o negão,A polaca tambémTodos podem dançarAo som de minha canção.


Coração de cachaça...


            O bêbado parou. Cambaleou. Olhou fixamente ao pato e disse -  eu sei que você nunca escutou porque a inventei eu mesmo... ontem...  Eu era músico, compositor, poeta, bohemio. todos me criticavam...  todos... até minha mãe.  Deu um forte eructo.
            - Era um direito seu escolher sua vida - disse o pato
            - Vivia na bohemia e todos me criticavam - enfatizou as palavra -  cr-ti-ca-vam. Minha mulher, a prefeita, a santinha, a chatinha... foi-se embora. Me abandonou. Disse que eu era um traste, que não prestava -  bebeu mais um gole de cachaça.  Eu moro sozinho numa pensão. Quer passar a noite lá, pato?... 
O pato aceitou. Não tinha mesmo onde ir.
            O bêbado apertou os olhos e mexeu a cabeça, deu alguns passos para a direita e para a esquerda para  equilibrar-se.
 - Já sei, eu moro do outro lado da praça! - gritou . E lá foram os dois, o Sandoval e o Pato. Lado a lado. O Sandoval cambaleando, o Pato, mexendo o rabo para os lados. Os dois com esse andar desajeitado que assemelha bêbados e patos.
            Sandoval colocou o Pato embaixo do casaco cinza, sujo e  desbotado para entrar na pensão. O dono não permitia animais.
            Depois de várias tentativas Sandoval conseguiu colocar a chave na fechadura e abrir a porta. Entrou no quarto. A cama estava desarrumada. Espalhadas no chão roupas, garrafas vazias. Os jornais velhos empilhados ao lado da mesa amarela, onde havia uma marmita que cheirava a podre e um prato sujo.
-Esta é minha casa  -  murmurou jogando o Pato encima da cama.
            - Você precisa escrever essa música.
            - Eu já não escrevo mais - disse o bêbado jogando-se sobre a cama.
            - Você vai voltar a escrever... pois eu estou cansado de ser o pato feio por sua causa. Não entende Sandoval? Eu sou o rejeitado o marginal que vive em cada ser humano. Ou você acha que o único marginal do mundo? Não! Homem, não. Cada vez que uma criança é rejeitada no jogo de futebol ou uma menina é chama da de feia,  cada vez que uma pessoa fica desempregada ou  um velho é jogado numa casa de repouso, cada vez que alguém é humilhado, cada vez que alguém erra  ou se sente rejeitado... eu deixo de ser cisne e me transformo no Patinho Feio.
- Nesta época isso se chama falta de auto-estima. Auto-estima... -  interrompeu o bêbado.
-    Isso mesmo! - confirmou o Patinho feio. - Quando as pessoas tem pouca autoestima. Quando se deixam vencer, decidem não lutar, decidem não tentar por medo do fracasso. Quando um homem ou mulher ou criança ou velho, aceitam a rejeição ou a humilhação  ou se sentem  limitados, eu me transformo de novo em pato. Fez uma pausa, fitou a Sandoval com olhos brilhantes e continuou: ¾       Por favor,  cansei de ser pato. Eu quero ser um cisne. Escreva essa canção..   Escreva Sandoval. Faça-o por seu amigo Pato.
            Sandoval pensou. Já  tinha  perdido seu amor próprio e o amor pela vida, o que mais poderia perder?  Começou a cantar e dançar: “Coração de cachaça, me da um beijo, me abraça...” O Pato também começou a dançar encima da cama. E tinha ginga. Movimentava  as alas para os lados rapidamente e depois as recolhia, deixava o corpo quieto e só mexia as penas da cauda. Era uma graça!
Sandoval, entusiasmado, cantou mais alto.
            Alguém que estava no quarto ao lado bateu na parede e gritou: Silencio!! Silêncio!! Fez a maior barulheira. O dono da pensão bateu na porta. O Sandoval e o pato ficaram calados, olhando-se como duas crianças sapecas depois de uma brincadeira.
             -  Eu vou dormir - disse o Pato e deitou sobre o travesseiro.
            Sandoval não disse nada. Sentou-se pegou um caderno e escreveu muitos poemas e compus muitas músicas.  Músicas alegres e tristes. Música de zamba e rock.  Algumas davam esperanças, outras entristeciam, outras ainda alegravam. Toda emoção, todo sentimento, eram transformados em música e em poesia pelo Sandoval.
            Dormiu quando a cidade começava a acordar e as pessoas iam para o trabalho. O ruído da rua se intensificou.  Pela janela entreaberta entrava ruído de  motores e  buzinas. Fumaça dos carros. Nada atrapalhava o sono profundo de Sandoval.
            Sandoval acordou quatro da tarde.  Lembrou do Pato. Procurou-o pelo quarto. Não estava. Só achou os poemas e as músicas que havia escrito na madrugada. E numa das folhas havia uma pegada...  podia-se ver claramente o pé de um pato.
            Ninguém acreditou na sua história. Coisas de bêbado, patos não falam, disse seu amigo Joaquim.  O Sandoval não se importou. Era ele quem necessitava acreditar, não os outros.  Nos dias seguintes registrou sua música e levou-a para gravadoras e estações de rádio. Ao começo poucos se interessaram, mas ele não desistiu. E de repente as coisas começaram acontecer. Alguém gostou. Um conjunto gravou “Coração de Cachaça”. Ficou primeira nas paradas.  Sua vida mudou. Suas canções tornaram-se populares.  Foi entrevistado várias vezes na Televisão.  Dois meses depois mudou para um apartamento. Comprou alguns móveis, mas levou sua cama, essa cama onde o pato tinha deitado. Fez um desenho do pato, o pato branquelo, com lágrimas nos olhos e o bico para baixo, o que dava um ar de tristeza. Colou a figura parede do quarto.
Essa noite, antes de dormir,  fixou seu olhar no  pato  triste colado na parede. Percebeu uma luz dourada em forma de espiral saltitar sobre a figura. E viu o pato que havia desenhado, o pato marginalizado, o pato desprezado, o patinho feio, transformar-se num belo cisne. Num cisne  triunfante.
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