sábado, 20 de julho de 2013

O PADRE OU O PAI? (Crônica)

            Meu amigo Orlando, que também é argentino e professor, mora em São Paulo onde ministra cursos e palestras. Uma noite, estava ministrando uma palestra e bem na primeira fileira estava sentado um senhor de gravata preta com uma figura enorme de Mickey Mouse em amarelo, que dormitava e havia deixado cair a cabeça de lado. Quando o orador levantava a voz, o homem abria os olhos trabalhosamente e voltava a fechá-los.
            Meu amigo ficou nervoso e, ao falar a biografia de Freud, errou e disse duas vezes “o padre de Freud”, em vez de “o pai de Freud”. Acontece que em espanhol a palavra “padre” tem dois sentidos: de pai e de pároco de igreja. Depois de dizer o padre de Freud pela terceira vez, o homem da primeira fileira abriu os olhos e empertigou-se, meu amigo continuou, mas o homem interrompeu a palestra exclamando: Minha nossa! Isso quer dizer que Freud era filho de um padre? Mas que história interessante! Conte mais, professor.
            Orlando, rindo, desculpou-se, pois havia errado. Esclareceu que a família de Freud era de origem judaica, mas para ele foi muito divertido perceber que o homem havia acordado e ficado atento ao resto da palestra.
Isabel Furini é escritora e poeta premiada - e-mail: isabelfurini@hotmail.com

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Você tem PRECONCEITOS???

Estamos na época em que as pessoas estão tomando consciência de que preconceitos ofendem os outros e não têm fundamento. Muito destrutivo é o preconceito racial. Essa postura absurda de medir as pessoas pela cor da pele.

Outro preconceito é que ser gay é pecado ou doença. A escolha sexual, como a escolha política, religiosa ou profissional, é um direito. As paradas gays, filmes e novelas ajudam as pessoas a diminuir o preconceito.

Existem outros preconceitos menos visíveis, por exemplo, o preconceito contra ateus. O apresentador Datena exteriorizou em um programa de TV, há alguns anos, o seu preconceito, dizendo que “ateus são pessoas sem limites, por isso matam, cometem essas atrocidades”. Mas temos exemplos de pessoas que frequentam igrejas e cometem crimes como, por exemplo, Elize Matsunaga, que matou e esquartejou o seu marido, o dono da Yoki. Muitos fanáticos religiosos também matam em nome de Deus. Ninguém é assassino só por ser ateu, como ninguém é santo só por frequentar uma igreja.

Outro preconceito presente na sociedade contemporânea é contra pessoas obesas. Obesidade é vista como sinônimo de vida não saudável. Uma vizinha que é professora foi chamada pela diretora da escola para falar sobre “o excesso de peso, pois não é saudável”. A professora perguntou-lhe: “Será que os magros não morrem? Só morremos os gordos?”.

O importante é entender que os preconceitos discriminam pessoas, ofendem, ferem e prejudicam. Gays e héteros, gordos e magros, lindos e feios, ateus e religiosos, somos todos humanos. Simplesmente humanos.

Isabel Furini é escritora e orienta oficinas de escrita literária. e-mail: isabelfurini@hotmail.com

CARÊNCIA EMOCIONAL - Arma de dois gumes?

Quando qualquer discussão começa a tomar caminhos inesperados, não é raro alguma das partes dar o grito de guerra: “Você tem carência emocional”. É a frase pronunciada para demolir o adversário. Daí para frente ele perde terreno, às vezes perde o chão completo, enquanto que a pessoa que usa a frase pode se sentar sobre uma montanha de conforto. A luta já está ganha.

Não importa o que o outro fale, os argumentos dele são nulos. Quem pode dar ouvidos a alguém que fala porque tem carência emocional? A tática é utilizada não só para desqualificar argumentos, mas para desqualificar o argumentador. Uma forma cruel de vencer a luta. Mas é muito interessante porque essa frase de carência emocional no fundo atinge não digamos a todos, mas a maioria das pessoas.

Quem não tem uma carência emocional lá, no fundo, bem guardada? Quem é tão amado quanto quer? Quem é tão popular quanto sonha? Quem conseguiu, realmente, realizar todos os seus sonhos? Tem um amante? Fez cirurgia plástica?  Come demais? Está gordo? Sente-se velho? Tudo isso pode fazer parte da carência emocional. Quer ser famoso? Quer ser o melhor? Quer aplausos? A origem pode ser a mesma. Quer viver uma grande paixão, ser o dono da rua, ser admirado? Carência emocional também.

Reveste-se de milhares de formas. Da necessidade de sentir-se bonito ao desejo de triunfar profissionalmente, do sonho de ter um filho ao sonho de ser famoso em Hollywood. No fundo, o ser humano tem carência, porque o mundo é caleidoscópico, cheio de formas, cores, conteúdos e sonhos irrealizáveis.

Por isso, na próxima vez que em uma discussão alguém triunfante diga que você age desse jeito porque tem carência emocional, responda que ele deveria tirar a máscara de perfeição e olhar para dentro. E tenha certeza, se ele olhar descobrirá em alguma parte da sua mente a “carência emocional”. Afinal até Platão disse que o Amor, o incrível Amor, é filho do Recurso e da Carência. É só ficar sozinho, olhar-se no espelho da verdade e a carência emocional estará lá... gritando muito perto dos ouvidos.

Isabel Furini é escritora e poeta, e-mail: isabelfurini@hotmail.com,
Quadro do artista plástico Carlos Zemek.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

ROSAS (Crônica)



Os anos passaram e o marido de Marisa parecia indiferente, já não mais morria de ciúmes. Até que um dia ele descobriu num canto da lavanderia, rosas vermelhas com um cartão: Amo você. Assinado: “Reginaldo”. Reginaldo? O vizinho? O vizinho está enviando flores para minha esposa? Cretino! João ficou desesperado.  Chegava cedo do trabalho e vasculhava os e-mails do computador buscando algum texto comprometedor.

Um dia encontrou o vizinho sentado no jardim, fumando. João avançou com o punho fechado.  O homem correu para sua casa, mas João, furioso, foi atrás dele. Reginaldo colocou a chave na fechadura, enquanto repetia: Você não entende... não é como você pensa, vizinho. João nem escutou e lhe deu vários socos no nariz.
            
A irmã de Marisa ligou preocupada: “Encontrei sua vizinha fofoqueira, a Ritinha, e ela falou que  seu marido pensa que você tem um amante.”

Marisa, feliz, confessou: “Querida, paguei R$1.000 ao vizinho maconheiro  para que mandasse flores, e mais R$ 2.000 para reconstruir o nariz dele, mas valeu cada centavo, querida.”

Isabel Furini é escritora e poeta premiada. Contato: isabelfurini@hotmail.com


MINICONTO: Beleza?


- Estive no salão de beleza – fala a avó.  A neta olha fixamente a cara da sexagenária e grita: “Eles roubaram o seu dinheiro, vó... roubaram mesmo! 

Isabel Furini é escritora e poeta premiada.

Vânia, a Vaidosa da Turma


            Existem vaidosos em todas as áreas. E como são chatos, não é verdade? Só falam de si mesmo e elogiam a própria obra sem  aceitar crítica nenhuma. Esse é o caso de Vânia,  que participou  de uma oficina de literatura, leu dois ou três livros sobre a Arte de Escrever e lá está ela sentindo-se uma estrela!    
O orientador da turma criticou-a. Uma aluna que participa da oficina e  gosta de discordar para mostrar que existe, lançou a frase fatal: “Ela tem o estilo de Prous". Vaninha parecia flutuar. Era isso!.. orgulhosa, dizia que era de linha proustiana”.  Interessante a afirmação, porque Vaninha nunca lera os livros de Proust.
            O tempo foi passando e a vaidade de Vaninha aumentou. “Eu utilizo o monólogo interior, a narração labiríntica, vejam o foco narrativo da segunda pessoa...  Um dia, um editor visitou a Oficina. Todos tiveram a oportunidade de ler um conto. O editor elogiou o esforço dos alunos e escolheu os contos de Talita para publicação.
            Vaninha sentiu-se ofendida. Eu escrevo igualzinho a Proust - esbravejou. O editor, é preciso dizer que havia lido a obra completa de Proust,  sarcástico, retrucou:
            - Moça, seus contos se parecem com os de Proust como uma azeitona se assemelha com uma melancia!
            Vaninha abandonou a oficina. Mas ainda escreve e segundo suas própria palavras: “até Proust foi rejeitado pelos editores de sua época... um gênio nunca é compreendido...”

Crônica de Isabel Furini - Contato: livrocoruja@yahoo.com.br

segunda-feira, 15 de abril de 2013

POR FAVOR, NÃO MATE SUA DENTISTA

O mundo é complexo, a sociedade consumista e o os pobres humanos não têm descanso, pois correm para poder conseguir não só o “pão nosso de cada dia”, mas dinheiro para pagar o condomínio, água, luz, telefone, gasolina... e até o dentista. Resultado: as pessoas estão cada dia mais estressadas.
Uma vez escutei uma piada na qual o personagem dizia que a coisa mais agradável aos ouvidos é ir ao dentista e escutar a secretária dizer: "O dentista está doente”.

Pois bem, na cidade francesa de Marselha, um idoso de 72 anos foi morto pela polícia depois de ele matar sua dentista de 51 anos. A causa? Problemas com orçamento.

A solução era tão simples. Era só o idoso procurar outro dentista. Por que não fez isso? Porque as pessoas não conseguem pensar em momentos de forte emoção? A raiva, a indignação e o desespero fazem com que os seres humanos cometam atos que nunca cometeriam se tivessem a chance de pensar com calma.

Fica a tristeza de duas vidas perdidas e o recado: por favor, não mate a sua dentista. Se ela é “careira”, procure outro profissional.

Isabel Furini é escritora e poeta premiada. Contato: e-mail: isabelfurini@hotmail.com




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