quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O Natal de Antônia

"Galaxia em espiral" - Arte Digital de Carlos Zemek.

O NATAL DE ANTÔNIA
(Conto de Isabel Furini)
                Éramos vizinhos. Morávamos no bairro Portão, em Curitiba. Ninguém tinha família por perto. Ocupávamos um predinho de três andares. Pintura amarela escancarada. No térreo e no primeiro andar, lojas, e no segundo andar, quitinetes de vinte metros quadrados enfileiradas ao longo do corredor externo, mal iluminado. Os moradores eram um espetáculo digno de menção, a começar pelo Zé Cervejinha, todo mundo o chamava assim, ninguém lembrava o seu verdadeiro nome. Zé Cervejinha ganhou esse apelido porque nunca ficava feliz com uma garrafa. E antes das 23 horas lá vinha ele, subindo as escadas vagarosamente, com os olhos apertados, a camisa desabotoada e um bafo insuportável. Atravessava o corredor cambaleando, mal conseguia colocar a chave na fechadura. Às vezes era auxiliado pelo Yoga (assim chamado porque era praticante). Ninguém lembrava o seu nome, para todos era Yoga. Sua quitinete cheirava a incenso. Só sabia falar de espiritualidade. Não era má pessoa, não. Sua irmã, Dalmira, que ocupava a quitinete úmida e escura do final do corredor, essa sim era mais perigosa do que cascavel. Uma língua afiada. Ela decidia. Ordenava. Controlava.
                Na outra quitinete, Luciano, um moreno simpático que estava doente. A quitinete cheia de plantas era de Ramona, a velha setentona que havia se esquecido de morrer, como todos diziam. Sempre vestia blusas estampadas de cores berrantes e saias indianas para fingir alegria e descontração. Coitada! Nunca escutara um “eu te amo” na sua vida. Nunca fora esposa, nem mãe, nem sequer noiva. Os pais morreram e ela ficou sozinha, sem profissão, sem família, um eterno lamento. Ela dizia que a depressão não a abandonava, o problema real era que ela se sentia tão sozinha que não abandonava a depressão. Na quitinete contígua as duas lésbicas pareciam felizes. Eram muito prudentes, quase não falavam com ninguém. 
                Nas duas quitinetes maiores, dois vizinhos que não participaram da festa: a viúva – com seus cabelos que chegavam até a cintura e sua saia que nem deixava ver os tornozelos – enfatizou que não celebrava o Natal porque era festa pagã; e um advogado obeso e fracassado, que foi passar as festas no litoral.


                E nesse Natal nos reunimos. Estávamos todos sozinhos, menos as lésbicas, é claro. Elas tinham muitas amigas para festar. Somou-se à trupe estranha a ruiva sardenta. Era muito alta e esquelética. Havia nascido em Matinhos, mas morava em São Paulo, comprou a quitinete para relaxar da cidade grande nos feriados. Tentava vender imagem de triunfadora. Enganou no princípio, mas em pouco tempo os vizinhos foram notando que a triunfadora que havia morado em Nova York e havia voltado ao Brasil buscando seu próprio lugar não era assim tão triunfante.  O cabelo vermelho fogo não dava para confundir com o natural. Tinha cara de ratinho assustado, e toda sua pose de mulher livre e soberana não conseguia esconder. Dizia ter dezenas de amigos, reconhecimento profissional e homens querendo casamento. Papo furado! Em um final de semana chegou com um rapaz um pouco mais jovem do que ela. Cara de safado. Ninguém gostou dele. Cheirava a trapaça. Só veio uma vez. Cansou-se rápido da tranquilidade do bairro. E a pobre ruiva voltou a ficar sozinha com seus sonhos.
                E nesse Natal nos reunimos. Zé Pagodinho, Delmira, Yoga, a velha Ramona, Luciano, as lésbicas, a ruiva e eu. O Yoga ficou encarregado das compras, era um constante ir e voltar do mercado. No forno da Delmira, um leitão. A velha cozinhava um peru. A ruiva se dedicou a preparar saladas exóticas e arroz. As lésbicas fizeram várias sobremesas. Eu, que sou uma nulidade para a culinária, ajudei a descascar batatas e a cortar tomates.
                Os homens colocaram as mesas, com toalhas muito brancas, enfileiradas no longo corredor e, entre uma cervejinha e outra, encheram os balões coloridos que foram pendurados no teto. A ruiva colocou uma árvore de Natal pequena, carregada de enfeites sobre um banco de madeira, no final do corredor. Por fim, tudo ficou preparado para a festa. Cada um trouxe sua cadeira e sentamo-nos, sorridentes, ao redor das mesas. Apesar do leitão bem dourado, do peru – com as asas torradas – das saladas com molhos desconhecidos, das cervejas, dos refrigerantes, das piadas, dos risos, cada um de nós cheirava a naftalina e a solidão. Era como se estivéssemos num barco à deriva. Água por todos os lados. Só céu e água. Marinheiros em um mar inacabável, parecia que seríamos engolidos pelas ondas das lembranças. Delmira alternava as críticas, ora criticava o primeiro marido, ora o segundo. Yoga pronunciava frases bonitas, Zé falava das festas no Rio de Janeiro e da ex-esposa que tinha um amante, a velha tinha o olhar sem vida, Luciano queixava-se de dor na coluna vertebral, a ruiva tentava manter a pose... com sua carinha de rato.
                De repente os fogos de artifício preencheram o céu de cores. Todos nos levantamos das cadeiras, alguns ficaram apoiados na varanda. E eu olhei o céu e vi essa cascata vermelha, azul e laranja, linda. Lindíssima! Depois desci os olhos para olhar essa trupe vagabunda. A solidão dançava sobre nossas testas. Estávamos reunidos e cada um de nós estava sozinho, segurando-se nos destroços do barco – uma madeira, um pedaço de convés, um fragmento de armário, a perna de uma mesa. Tentávamos nos manter flutuando. O barco havia naufragado. Estávamos reunidos nesse Natal e éramos um grupo de náufragos arrastados pelas correntes do viver. O Natal já não mais renovava os sonhos. Havia perdido sua magia.
Isabel Furini é escritora e poeta premiada.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2013 - Ano além da planície proibida


É meu desejo que em 2013 possamos entender a natureza dos obstáculos e superá-los.  Ir além da PLANÍCIE PROIBIDA – reencontrar a Alegria e o Amor que os inimigos ocultos (esses disfarçados de amigos)  insistem em apagar de nossas almas.
Quadro "Além da planície proibida" de Carlos Zemek. Ver: http://www.cazemek.blogspot.com.br/


Ter confiança e coragem para tomar decisões e realizá-las.
Ter firmeza para dizer "não" quando essa palavra é necessária.

Diante de qualquer entrave pensar : "Essa é uma luta para quebrar brinquedo, não é parte da grande preparação”.

E neste mundo de brinquedos, de jogos, de falsidade, de vaidade, no qual parece fundamental mostrar que somos felizes, sempre felizes, de dia e de noite, como se o mundo fosse um parque de diversões e os seres humanos deuses imortais, sempre alegres, sorridentes, sem perguntas e sem respostas, (bonecos alegres e indiferentes ao sofrimento do mundo), vamos ler essa bela página da Bíblia:
TEMPO PARA TUDO 
Tudo neste mundo tem seu tempo;
cada coisa tem sua ocasião.

Há um tempo de nascer e tempo de morrer;
tempo de plantar e tempo de arrancar;
tempo de matar e tempo de curar;
tempo de derrubar e tempo de construir;

Há tempo de ficar triste e tempo de se alegrar:
tempo de chorar e tempo de dançar;
tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las;
tempo de abraçar e tempo de afastar;

Há tempo de procurar e tempo de perder;
tempo de economizar e tempo de desperdiçar;
tempo de rasgar e tempo de remendar;
tempo de ficar calado e tempo de falar.
Há tempo de amar e tempo de odiar
tempo de guerra e tempo de paz.
Eclesiaste 3, 1-8

FELIZ 2013

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O CEGO (Crônica)


Algumas vezes o Carlinhos  admira a todos com a sua sabedoria. Com seus seis anos e meio já é um filósofo.
Dias atrás Inês falava com dona Marieta, avó do Carlinhos, sobre as dificuldades que enfrentam as pessoas com deficiência visual. Elogiava a coragem de um jovem cego que morava no outro quarteirão.
– Dona Marieta –  disse Inês – eu estava perto da estação central, caminhando para o ponto do biarticulado quando vi o rapaz cego indo para o mesmo lugar. De repente, ele se desorientou e bateu a bengala contra a parede de um prédio. Aproximei-me dele e perguntei aonde ia. Ele respondeu que queria pegar o biarticulado. Eu falei que também iria para lá e perguntei se podia pegá-lo pelo braço para guiá-lo. O rapaz disse que sim. Fomos até a Estação Central.  Ele agradeceu, mas disse que podia continuar sozinho.
Inês ficou perto, observando-o. O rapaz cego permaneceu perto da porta. Ninguém deu o lugar. Ele estava de pé assegurando-se do corrimão. O ônibus, lotado. De repente, vira a cabeça para a pessoa da direita e pergunta: “ O próximo ponto é  Praça do Japão? – Sim, reponde o homem, é o próximo ponto.
O cego desceu e o ônibus continuou seu caminho.
– Dona Marieta, - confessou Inês - eu fiquei admirada de como um cego consegue ir onde quer...  ele não vê mas conseguiu ir onde queria.
– Claro, ele era cego não era burro... – retrucou o Carlinhos.
– Eu sei, Carlinhos! – exclamou Inês rindo - mas deve ser difícil chegar a um lugar que a gente não pode enxergar...
– Sim, meditou o Carlinhos, o cego chegou onde queria porque o importante não é ver, senhora Inês, o importante é saber...  saber aonde a gente quer chegar.
Nesse momento, Inês pensou que  Carlinhos tinha descoberto por si mesmo uma regra importante para a vida. Para chegar algum lugar é preciso saber qual é nosso objetivo. Pensou que  Carlinhos era um sábio, um pequeno sábio que gostava brincar com aviãozinhos.

domingo, 23 de dezembro de 2012

NATAL É ABORDADO EM MINICONTOS


Minicontos é uma modalidade literária considerada recente. O miniconto mais famoso é do escritor guatemalteco Augusto Monterroso (1921- 2003): "Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá”. Nesta época de blogues, Twitter,  e-mail e redes sociais, as pessoas estão escrevendo mais e, muitas vezes, encrencando-se ao dar as opiniões diretamente, sem os filtros das boas maneiras. Esta é a época do texto curto e contundente. Por isso, alguns consideram que o miniconto chegou na hora certa.

Como exprimir os pensamentos em poucas palavras? Como criar personagens, enredos, tempo, espaço, narrador, em um conto com menos de 100 palavras. Esse foi o desafio que apresentei aos meus alunos da oficina de criação literário que oriento no Solar do Rosário. A pergunta foi ondulando até outros ouvidos atentos.  O resultado é o livro “Natal, viagens e fantasias” publicado pela editora Virtual Books. O jornalista Marcelo Spalding, especialista na modalidade miniconto, escreveu o prefácio, e o poeta e contista Alvaro Posselt, a introdução.

O livro contem minicontos de autores com estilos diferentes. O fio condutor é o Natal. A visão que cada um tem,  as coisas interessantes, engraçadas ou bizarras que podem acontecer no Natal. E não vai pensar o leitor que estará diante de autores inexperientes, não! É verdade que para alguns é a primeira publicação, mas entre os contistas estão Fernando Botto, que há anos se dedica às letras e  já tem livros de contos e de crônicas publicados, Alexandra Barcellos, escritora de livros infantis e Silvia Maria de Araújo, socióloga com trabalhos excelentes na área pedagógica, quem ganhou em 2001, como coautora, o prêmio Jabuti na categoria Livro Didático. Destacamos também a participação de Willians Mendonça, engenheiro floresta e apaixonado pela literatura,  que neste ano conquistou o segundo lugar no 5º Concurso  para servidores públicos “Servir com Arte”.


A reunião dos contos faz o leitor pensar nas faces diferentes do Natal. É o Natal alegre, o Natal reflexivo, o Natal consumista, o Natal em família, o Natal no campo e na cidade, na casa e numa viagem inusitada, nos sorrisos e nas lembranças. Porque Natal quer dizer nascimento, e nascer é um momento mágico que acontece simbolicamente cada vez que decidimos deixar o passado e renovar as energias.  

Participaram do livro que tive a honra de organizar: Alexandra Barcellos: Ana Paula Lemos Pinheiros, Eliziane Nicolao Lobo Pacheco, Fernando Botto, Luciana Souza, Luiza Guarezi, Susana Arceno Silveira, Silvia Maria de Araújo, Willians R. Mendonça. Contos em parceria: Adriana Menendez e Sonia Andrea Mazza. Nosso escritor convidado foi Rodrigo Domit, ganhador de vários prêmios literários.

O livro será lançado em 12 de dezembro, 19 horas, no SESC Água Verde. No evento também será inaugurada a exposição de quadros “Natal, Viagens e fantasias", com trabalhos em Arte Digital de Carlos Zemek, e trabalhos em óleo, acrílico e aquarela dos artistas: Alexandre de Paula, Carlos Zemek, Célia Dunker, Dirce Polli, Gustavo Cardoso Melo, Ilia Ruiz,  Jeffe Cor, J. Bonatto, Katia Velo, Mercedes Brandão, Neiva Passuello, Sandoval Tibúrcio, Valéria Sípoli, Vavá Diehl,  Jeffe Cor, Rosa Miller.  Esculturas de Regina Tiscoski.  Curadoria: Dirce Polli.


O dramaturgo Jul Leardini realizou a representação de alguns contos do livro.

O livro foi lançado em 12 de dezembro de 2012, 19 horas, no SESC Água Verde, com boa acolhida do público. A sala ficou pequena para tantas pessoas. Para o evento contamos com o apoio de Edilene Guzzoni, produtora cultural do SESC Água Verde.



MADAME BOTOX (Miniconto)



A  voluntaria na creche,  apelidada Madame Botox, entrou na biblioteca.  Generosa, sorria, lia, dava sopa às crianças. Depois solicitava votos para seu marido.
–  Título do livro?  – perguntou  Dalma. “ nem botox concerta essa cara de bunda...” pensou.
–  Irmãos Grimm.
Dalma procurou-o nas estantes.
–  Crianças podem escolher...
– Não! Eles são de famílias pobres e ignorantes.
– Aqui está .
            A madame pegou o livro. Saiu. Dalma ficou olhando-a pela janela.
–  Chateada? – perguntou Tânia.
–  Livros deveriam ter espelhos psicológicos, os leitores poderiam enxergar o verdadeiro rosto.
–  Muitos livros têm espelhos, Dalma, mas algumas pessoas não querem se enxergar.

Isabel Furini é escritora e poeta premiada.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Escândalo no prédio (crônica de Isabel Furini)



As mulheres do prédio estavam reunidas na recepção. Todas falando ao mesmo tempo. Esperavam a síndica. Ela chegou minutos depois. Calmamente perguntou qual era a causa daquela agitação toda.
- O primeiro andar tem um grande terraço... - disse dona Manoela.
- E sempre alguém está tomando sol nesse terraço! - enfatizou Vanessa, que estava sentada com a filha de dois anos no colo.
- Não tem nada de errado tomar sol no terraço. Isso não é proibido - disse a síndica.
- Conte, conte, dona Cidinha - incentivou-a Manoela.
- Mas hoje eu vi... Eu estava olhando pela janela, não estava espionando, não.  Hoje eu estava olhando inocentemente pela janela quando vi... - dona Cidinha cobriu o rosto com as mãos e disse descendo a voz: - Vi um homem nu tomando sol no terraço do primeiro andar.
- Era seu Inácio? - perguntou Rosalba, uma antiga moradora.
- Aquele velho contador aposentado tomando sol nu no terraço? - perguntou a síndica.
- Que horror! - disse gritou Manoela.
- Não! Não era ele, não! Era esse sobrinho, esse jovem alto e moreno, parecido com o Rodrigo Santoro.
- Ahhhh! Uauuuu! E outras exclamações surgiram dos lábios das mulheres.
- Aquele rapaz estava tomando sol nu no terraço? Por favor, dona Cidinha, a próxima vez que isso acontecer, me chame imediatamente - disse a síndica - eu quero tirar algumas fotografias daquele gatão nudista!

Isabel Furini é escritora e palestrante - autora do livro "Eu quero ser escritor - a crônica".

sábado, 24 de novembro de 2012

Minicontos Música e Biblioteca


MÚSICA
 Essa música era insuportável. Todos os dias o novo vizinho incomodava tocando piano. Era um barulho continuo,  monótono. Marilda reclamou com o síndico. Ficou admirada ao saber que o músico era famoso. Procurou o seu nome na internet. Ele já havia dado concertos em Roma, Paris e Berlim. Essa mesma tarde ligou para todas as amigas comentando como é maravilhoso ter um músico tão importante morando no prédio.

BIBLIOTECA

A  voluntaria na creche,  apelidada Madame Botox, entrou na biblioteca.  Generosa, sorria, lia, dava sopa às crianças. Depois solicitava votos para seu marido.
–  Título do livro?  – perguntou  Dalma. “ nem botox concerta essa cara de bunda...” pensou.
–  Irmãos Grimm.
Dalma procurou-o nas estantes.
–  Crianças podem escolher...
– Não! Eles são de famílias pobres e ignorantes.
– Aqui está .
            A madame pegou o livro. Saiu. Dalma ficou olhando-a pela janela.
–  Chateada? – perguntou Tânia.
–  Livros deveriam ter espelhos psicológicos, os leitores poderiam enxergar o verdadeiro rosto.
–  Muitos livros têm espelhos, Dalma, mas algumas pessoas não querem se enxergar.

NATAL
Artes plástica, Coral do Thalia e Lançamento de livro de minicontos "Natal, viagens e fantasias", no SESC Água Verde, Curitiba (antigo SESC da Terceira Idade). Será em 12 de dezembro, 19 horas. 
Exposição de arte digital de Carlos Zemek, Esculturas de Regina Tiscoski ,  e exposição de quadros de Alexandre de Paula, Carlos Zemek, Célia Dunker, Chardulo, Dirce Polli, Gustavo Cardoso Melo, Ilia Ruiz,  Jeffe Cor, J. Bonatto, Katia Velo, Mercedes Brandão, Neiva Passuello, Sandoval Tibúrcio, Valéria Sípoli, Vavá Diehl,  Jeffe Cor, Rosa Miller. Curadora Dirce Polli. ENTRADA FRANCA

                                                          


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