quinta-feira, 12 de novembro de 2015
O DIA EM QUE ME SENTI UM PERSONAGEM (Crônica de Isabel Furini)
"Quando um livro é publicado de maneira clássica, ou seja, quando o autor envia seu texto a uma editora que “banca” a publicação e encarrega-se de conseguir diagramador, capista, de fazer a correção ortográfica e procurar uma boa gráfica, é comum o autor ganhar alguns livros para presentear a imprensa ou pessoas que sejam consideradas líderes de opinião.
Pois bem, isso aconteceu quando há mais de vinte anos foi publicado um livro infantil de minha autoria chamado “O Prego Nélio”.
Acontece que eu fui doando os exemplares que tinha até ficar sem nenhum. Irritada com meu próprio erro, fui até uma instituição que tinha um exemplar do livro para tirar fotocópias. Minha surpresa foi enorme quando escutei a secretária dizer: “Ninguém pode tirar fotocópias dos livros”.
Mostrei minha identidade e falei:
- Eu sou a autora do livro.
- Mas se fotocopiar o livro, isso seria plágio. - retrucou-me com muita seriedade.
- Eu sou a autora. Acaso irei plagiar o meu próprio livro? - perguntei um pouco confusa, sentindo-me um personagem que havia fugido de alguma crônica do Veríssimo.
- Não pode fotocopiar. - insistiu.
- Eu escrevi esse livro! - gritei.
- Mas o exemplar é nosso e não poderá fotocopiar.
Tive que me resignar e voltar para casa. Por sorte, uma antiga aluna que havia guardado um exemplar tirou fotocópia e teve a delicadeza de ficar com a mesma e presentear-me com o livro do qual sou autora. Mas isso despertou várias reflexões: a primeira sobre a necessidade de guardar um exemplar de qualquer obra de minha autoria; a segunda, de que muitas vezes o zelo administrativo leva a situações absurdas como a que eu havia vivido, e ficou em mim a sensação de que em algumas situações nossa humanidade parece perder-se no mar da ficção. Parecemos um personagem de crônica vivendo uma situação bizarra, e precisamos nos olhar no espelho para reconhecer quem realmente somos.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
O TERMINAL GUADALUPE E AS SOMBRAS (Conto de Isabel Furini)
O TERMINAL GUADALUPE E AS SOMBRAS (Conto)
18 horas - Cai o sol de inverno, pálido, sem forças.
19 horas – Escurece mesmo.
Os operários da construção civil, trabalhadores domésticos, pessoal da limpeza, vendedores alguns camelôs, professores, poetas e sonhadores, saem de seus trabalhos e correm até o terminal.
Mariazinha, está na fila do Vila Zumbi quando escuta seu nome: "Mariazinha" – alguém acena para ela. Que bom! – murmura a Mariazinha – O gerente vai me dar carona de novo.
– Não faça isso senhora, é pecado. – diz uma mulher com saia e cabelos longos (muito longa a saia, muito longo o cabelo).
Uma mulher de olhos azuis observa de cima para baixo a mulher de saia comprida e solta uma gargalhada. – Cale a boca sua vadia e cuide de sua vida! – fala com autoridade.
Minutos depois chega Aparecida, Cida para os amigos. Estou pensando em fotografar esses dois e ganhar uma grana extra.
Boa ideia, fala a mulher dos olhos azuis.
Um casal de idosos olha para elas e comenta algo sobre falta de ética. – O mundo mudou, meu velho – fala a idosa.
Duas mulheres olham para a igreja do Guadalupe e fazem o sinal da cruz. Um pai fala para seus filhos "é o triunfo do mal, um sinal do fim do mundo". Idiotas pensa uma professora, tira um livro da bolsa e começa a ler. Várias pessoas da fila comentam o fato de o ônibus estar demorando mais que outros dias.
O Apolinário olha as pessoas apinhadas e fala:
Foi tão difícil a estrada!
meus pés estão cansados,
minhas mãos, calejadas,
minha boca muda e sem vida
minha vida sem esperanças.
Ninguém olha para ele. Que indiferença. Ninguém vai dizer nada? Gente. Eu declamei um poema.
Chega o ônibus – Por fim! – exclamo um idoso. As pessoas começam a subir e ocupar os assentos. Alguns viajam de pé, outros preferem esperar o próximo. A fila parece uma cobra gigantesca. Cresce rapidamente.
Apolinário repete:
Foi tão difícil a estrada!
meus pés estão cansados,
minhas mãos, calejadas,
minha boca muda e sem vida
minha vida sem esperanças.
– Parece que ninguém gostou do poema. Fala o Apolinário.
– Não adianta – comenta Tiago, um amigo dele. Eles não conseguem te enxergar.
– Um momento. Veja essa criança, ele escutou. Sim, ele escutou e está olhando para os lados.
– Olhe, mamãe. Esse cara engraçado, lá no teto.
– Querido, esse é seu amiguinho invisível? – Pergunta a mãe sorridente, encurvando-se sobre a criança e dando-lhe um beijo na bochecha.
– Ele não é meu amigo – fala a criança.
De repente uma forte luz ilumina o lado direito do terminal, mas ninguém repara.
Do lado esquerdo, as sombras crescem.
Do lado direito um homem com roupas brancas tem um sorriso iluminado.
Do lado esquerdo, um homem com roupas cinzas tem um olhar terrível.
Do lado direito, para um ônibus, as pessoas começam a subir. O Zecão abre a carteira. O homem do sorriso iluminado grita:
– Não faça isso Zecão, falei tantas vezes para não fazer isso, meu amigo.
Do lado esquerdo três homens correm. O rapaz de óculos empurra o Zecão, outro tenta pegar a carteira. O Zecão, aperta a carteira. Um dá um soco no nariz dele. Mas o Zecão não solta. O terceiro, passa a navalha pela garganta do Zecão.
O Zecão não solta a carteira. As pessoas gritam. O sangue encharca o terminal. As pessoas pegam os celulares e tiram fotografias do Zecão morrendo. Ninguém chama uma ambulância. É mais importante registrar o momento. Não adianta, esse cara vai morrer mesmo, fala o rapaz de camiseta amarela. Vamos tentar vender essas fotos para algum jornal, murmura o amigo dele.
Uma moça solicita a uma mulher vestida com casaco preto, de olhos esbugalhados, para tirar uma foto dela ao lado do morto. A mulher está a ponto de chorar.
– Por favor, senhora, implora a moça. Uma coisa como esta é difícil de acontecer, fala enquanto penteia o cabelo. – Minhas amigas não vão acreditar. Preciso de uma foto.
A mulher, seca uma lágrima com o dorso da mão e pega a câmara fotográfica.
– Tem que apertar aqui – fala a moça mostrando um botão prateado na parte direita da câmara. A mulher, indecisa, demora um pouco, mas consegue tirar a foto. Na frente a moça, no chão o homem ensanguentado.
– Preciso de várias fotos, por favor, alguma delas vai ficar boa. Fala a moça muito empolgada como se o momento fosse de festa.
Perto dela um rapaz com seus fones de ouvido faz movimento de dança com a cabeça, mas o corpo permanece rígido no lugar.
O homem sorridente que faz parte do globo de luz da direita grita:
– Ei, Zecão. Venha para este lado, homem. Não vai para as sombras, não. Venha!
Os outros seres que estão a seu lado também gritam: – Venha, Zecão, venha.
– Zecão, você está em nossa lista! – grita o homem de olhar terrível que chefia as sombras.
– Está na lista! – grita o coro de sombras desafinado.
O Zecão está confuso. Lembra da esposa e dos filhos, ele quer voltar para casa. Sentar no sofá, assistir TV., comer o arroz com feijão.
O homem de olhar terrível do lado esquerdo mostra partes da vida do morto.
O homem sorridente do lado direito, também mostra partes da vida do morto.
O Zecão sente medo. Impulsivamente, corre para a luz.
O poeta vê a cena e declama um poema:
Essa luz que agora acende,
com milhares de lembranças,
é de um túnel que surpreende.
Quem caminha além do túnel
reencontrará a esperança.
O homem sorridente da bola de luz que está do lado direito grita:
– Poeta, você vai entrar na luz ou vai continuar declamando no terminal?
– Eu também morri neste terminal – fala o poeta. Mas foi de problema cardíaco, há 8 anos. Acho que vou ficar por aqui mesmo. Sempre encontro amigos.
– Sim, vamos ficar mais um pouco – disse o amigo de Apolinário. Os dois pulam sobre o teto de ônibus amarelo que está saindo do terminal e acenam repetidamente com a mão direita.
18 horas - Cai o sol de inverno, pálido, sem forças.
19 horas – Escurece mesmo.
Os operários da construção civil, trabalhadores domésticos, pessoal da limpeza, vendedores alguns camelôs, professores, poetas e sonhadores, saem de seus trabalhos e correm até o terminal.
Mariazinha, está na fila do Vila Zumbi quando escuta seu nome: "Mariazinha" – alguém acena para ela. Que bom! – murmura a Mariazinha – O gerente vai me dar carona de novo.
– Não faça isso senhora, é pecado. – diz uma mulher com saia e cabelos longos (muito longa a saia, muito longo o cabelo).
Uma mulher de olhos azuis observa de cima para baixo a mulher de saia comprida e solta uma gargalhada. – Cale a boca sua vadia e cuide de sua vida! – fala com autoridade.
Minutos depois chega Aparecida, Cida para os amigos. Estou pensando em fotografar esses dois e ganhar uma grana extra.
Boa ideia, fala a mulher dos olhos azuis.
Um casal de idosos olha para elas e comenta algo sobre falta de ética. – O mundo mudou, meu velho – fala a idosa.
Duas mulheres olham para a igreja do Guadalupe e fazem o sinal da cruz. Um pai fala para seus filhos "é o triunfo do mal, um sinal do fim do mundo". Idiotas pensa uma professora, tira um livro da bolsa e começa a ler. Várias pessoas da fila comentam o fato de o ônibus estar demorando mais que outros dias.
O Apolinário olha as pessoas apinhadas e fala:
Foi tão difícil a estrada!
meus pés estão cansados,
minhas mãos, calejadas,
minha boca muda e sem vida
minha vida sem esperanças.
Ninguém olha para ele. Que indiferença. Ninguém vai dizer nada? Gente. Eu declamei um poema.
Chega o ônibus – Por fim! – exclamo um idoso. As pessoas começam a subir e ocupar os assentos. Alguns viajam de pé, outros preferem esperar o próximo. A fila parece uma cobra gigantesca. Cresce rapidamente.
Apolinário repete:
Foi tão difícil a estrada!
meus pés estão cansados,
minhas mãos, calejadas,
minha boca muda e sem vida
minha vida sem esperanças.
– Parece que ninguém gostou do poema. Fala o Apolinário.
– Não adianta – comenta Tiago, um amigo dele. Eles não conseguem te enxergar.
– Um momento. Veja essa criança, ele escutou. Sim, ele escutou e está olhando para os lados.
– Olhe, mamãe. Esse cara engraçado, lá no teto.
– Querido, esse é seu amiguinho invisível? – Pergunta a mãe sorridente, encurvando-se sobre a criança e dando-lhe um beijo na bochecha.
– Ele não é meu amigo – fala a criança.
De repente uma forte luz ilumina o lado direito do terminal, mas ninguém repara.
Do lado esquerdo, as sombras crescem.
Do lado direito um homem com roupas brancas tem um sorriso iluminado.
Do lado esquerdo, um homem com roupas cinzas tem um olhar terrível.
Do lado direito, para um ônibus, as pessoas começam a subir. O Zecão abre a carteira. O homem do sorriso iluminado grita:
– Não faça isso Zecão, falei tantas vezes para não fazer isso, meu amigo.
Do lado esquerdo três homens correm. O rapaz de óculos empurra o Zecão, outro tenta pegar a carteira. O Zecão, aperta a carteira. Um dá um soco no nariz dele. Mas o Zecão não solta. O terceiro, passa a navalha pela garganta do Zecão.
O Zecão não solta a carteira. As pessoas gritam. O sangue encharca o terminal. As pessoas pegam os celulares e tiram fotografias do Zecão morrendo. Ninguém chama uma ambulância. É mais importante registrar o momento. Não adianta, esse cara vai morrer mesmo, fala o rapaz de camiseta amarela. Vamos tentar vender essas fotos para algum jornal, murmura o amigo dele.
Uma moça solicita a uma mulher vestida com casaco preto, de olhos esbugalhados, para tirar uma foto dela ao lado do morto. A mulher está a ponto de chorar.
– Por favor, senhora, implora a moça. Uma coisa como esta é difícil de acontecer, fala enquanto penteia o cabelo. – Minhas amigas não vão acreditar. Preciso de uma foto.
A mulher, seca uma lágrima com o dorso da mão e pega a câmara fotográfica.
– Tem que apertar aqui – fala a moça mostrando um botão prateado na parte direita da câmara. A mulher, indecisa, demora um pouco, mas consegue tirar a foto. Na frente a moça, no chão o homem ensanguentado.
– Preciso de várias fotos, por favor, alguma delas vai ficar boa. Fala a moça muito empolgada como se o momento fosse de festa.
Perto dela um rapaz com seus fones de ouvido faz movimento de dança com a cabeça, mas o corpo permanece rígido no lugar.
O homem sorridente que faz parte do globo de luz da direita grita:
– Ei, Zecão. Venha para este lado, homem. Não vai para as sombras, não. Venha!
Os outros seres que estão a seu lado também gritam: – Venha, Zecão, venha.
– Zecão, você está em nossa lista! – grita o homem de olhar terrível que chefia as sombras.
– Está na lista! – grita o coro de sombras desafinado.
O Zecão está confuso. Lembra da esposa e dos filhos, ele quer voltar para casa. Sentar no sofá, assistir TV., comer o arroz com feijão.
O homem de olhar terrível do lado esquerdo mostra partes da vida do morto.
O homem sorridente do lado direito, também mostra partes da vida do morto.
O Zecão sente medo. Impulsivamente, corre para a luz.
O poeta vê a cena e declama um poema:
Essa luz que agora acende,
com milhares de lembranças,
é de um túnel que surpreende.
Quem caminha além do túnel
reencontrará a esperança.
O homem sorridente da bola de luz que está do lado direito grita:
– Poeta, você vai entrar na luz ou vai continuar declamando no terminal?
– Eu também morri neste terminal – fala o poeta. Mas foi de problema cardíaco, há 8 anos. Acho que vou ficar por aqui mesmo. Sempre encontro amigos.
– Sim, vamos ficar mais um pouco – disse o amigo de Apolinário. Os dois pulam sobre o teto de ônibus amarelo que está saindo do terminal e acenam repetidamente com a mão direita.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
O ESCRITOR
O ESCRITOR
Ernesto mudou-se do centro da cidade para o bairro de Bacacheri, perto do parque. Precisava de silêncio para escrever sua obra fundamental. Renovarei as letras, falava com seus botões.
Nessa manhã de sábado estava sentado diante do computador. Escrevia o primeiro parágrafo de seu novo romance. Que nome daria à sua personagem? Teria que iniciar com A para demonstrar que o enredo partia de uma ação realizada pela protagonista. Ana seria um bom nome? Não! Curto demais. Anastásia? Não! Poderia ser confundido com a história da nobre russa desaparecida. Anacleta... não... não... Albertina? Isso mesmo! Albertina! Albertina foi o nome escolhido por Proust para sua personagem feminina. Por que não? Ao final, meu livro tem uma marcante influência proustiana, concluiu.
Uma vez escolhido o nome da protagonista, o escritor inicia o primeiro parágrafo. Tem que ser visceral, pensou. Dilacerante! “No quarto escuro, Albertina apalpa as paredes. Onde estará o espelho de luz? Um reflexo luminoso no chão. A luz entrava por baixo da porta. Do outro lado, vozes e risos. Uma festa? Não lembrava...” Não lembrava... eu escrevi não lembrava mas ficou feio. Tenho que achar outra frase. Vejamos. Uma festa? Albertina estava confusa... Que porcaria... não era isso, não. O que escrever depois da pergunta: uma festa? Imagens rápidas... Não, rápidas não!.. Imagens entrecortadas. Isso ficou bom: imagens entrecortadas acudiam velozes. Que diabos estou escrevendo? Imagens não acodem... imagens... imagens aparecem? Surgem? Nada disso. Ernesto deleta as frases e volta àquela pergunta: Uma festa?
Ele tentou escrever esse parágrafo durante horas a fio. O sol caía no horizonte quando Ernesto, desesperado, olhou o céu azul profundo com matizes vermelhos. Olhou o monitor. Não havia conseguido terminar o primeiro parágrafo. Nem o retrato de Proust, colocado na estante lhe havia servido de inspiração. – Se não posso ser igual a Proust, para que viver? – perguntou-se. Sempre olhando o céu, encaminhou-se à janela. E trêmulo e corajoso ao mesmo tempo, gritou:
– Márcia, coloque no meu epitáfio: Foi um bom escritor.
A esposa correu até o quarto, mas era tarde demais. Chegou no momento em que Ernesto, de olhos fechados, jogava-se pela janela. Machucou o braço e as costas. Tentou sentar-se na grama, enquanto Márcia, colocando a cabeça para fora da janela, gritava: – Ernesto, o que tentou fazer? Você esqueceu que agora moramos no térreo?
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Milagre de Natal (Conto)
João recebeu uma ligação da editora. A secretária disse que o senhor Eufrásio, o dono, queria vê-lo nessa mesma tarde.
João sentiu seu ego elevar-se sobre os prédios mais altos da cidade. Arrumou-se. Trocou duas ou três vezes de gravata para ver qual lhe dava um ar de homem respeitável. Agora ele era um escritor. Tinha que cuidar de sua imagem.
O editor o recebeu com um sorriso especial… um sorriso que não tinha fim.
– Pode sentar-se, João – disse o senhor Eufrásio – quero enfatizar que raramente um autor estreante como você recebe uma carta de um autor consagrado como Mistópolos… e com tantos elogios! Eu posso dizer que foi um verdadeiro milagre!
– Obrigado, obrigado – disse João, fingindo humildade.
– Foi um milagre, rapaz, um milagre mesmo… um milagre de Natal!..
– Foi?
João sentiu seu ego elevar-se sobre os prédios mais altos da cidade. Arrumou-se. Trocou duas ou três vezes de gravata para ver qual lhe dava um ar de homem respeitável. Agora ele era um escritor. Tinha que cuidar de sua imagem.
O editor o recebeu com um sorriso especial… um sorriso que não tinha fim.
– Pode sentar-se, João – disse o senhor Eufrásio – quero enfatizar que raramente um autor estreante como você recebe uma carta de um autor consagrado como Mistópolos… e com tantos elogios! Eu posso dizer que foi um verdadeiro milagre!
– Obrigado, obrigado – disse João, fingindo humildade.
– Foi um milagre, rapaz, um milagre mesmo… um milagre de Natal!..
– Foi?
– Sim, João, foi um verdadeiro milagre, pois Mistópolos morreu em 2005.
Fonte: FURINI, Isabel Florinda (org.) Contos por 14 Autores. Curitiba: JM Livraria Jurídica, 2008.
Fonte: FURINI, Isabel Florinda (org.) Contos por 14 Autores. Curitiba: JM Livraria Jurídica, 2008.
O Caçador e o Anjo (Conto)
Era uma vez um jovem Anjo que duvidava da existência dos homens. Ele via uma forma de carne, ossos, sangue, pele, cabelos, uma forma material. Essa forma se movia, alimentava-se e descansava, mas ainda assim o Anjo duvidava de que fosse um homem.
O anjo sabia que os homens são espírito e matéria, e que ele tinha uma missão: cuidar de um deles. Porém, questionava se a forma rude que via era mesmo de um ser humano.
O homem, chamado Estevão, só acreditava no mundo material e ria quando alguém lhe dizia que existiam anjos. Um dia ele foi caçar numa floresta e, correndo sobre o mato úmido atrás de um veado, bateu contra o tronco de uma árvore morta que estava caída no chão. A arma escorregou de suas mãos e um forte estrondo, como o rugido de um leão, agitou a floresta. Rapidamente os pássaros revoaram e animais pequenos voltaram a suas tocas. Ao cair no chão a espingarda disparara e o caçador, com tão pouca sorte, foi ferido.
Estevão, lá deitado, vendo o sangue escorrendo de seu peito, olhou para o céu a fim de pedir socorro e, num raio de sol que penetrava pela copa das árvores, divisou a imagem de um anjo com suas aas brancas. O Anjo, por sua vez, ao ver o homem clamando por Deus, percebeu seu espírito. Ambos se olharam com curiosidade e, em seguida, passaram a se examinar mutuamente
- Você é um Anjo? Então os anjos existem! - disse o homem, admirado.
- Você é um homem? Então os homens existem! - exclamou o Anjo.
Ambos deram-se as mãos. Estevão, no entanto, havia perdido muito sangue e desmaiou. Foi acordar num quarto simples, da casa de um lenhador que por acaso passara por onde ele se encontrava na floresta e, ao vê-lo ferido, decidiu a ajudá-lo.
Desde esse dia o caçador se fez amigo do Anjo, e o Anjo se fez amigo do homem. O humano sentiu-se tão feliz com seu companheiro celeste que deixou de matar outras criaturas. Agora, sua maior diversão era observar os seres da natureza: ondinas e gnomos, silfos e salamandras. Mostrou também seu mundo a seu amigo: casas e fábricas, lojas e clubes, cinemas, teatros e shoppings. Mas o ser celeste preferia as florestas, as montanhas e os mares, o ruído dos ventos, das ondas e dos pássaros.
O homem e o Anjo sempre permaneciam juntos, e os sensitivos que por acaso os viam, detinham-se perplexos a observá-los: ambos caminhavam juntos, tão serenamente que ninguém sabia se o homem era guiado pelo Anjo ou se o Anjo era guiado pelo homem.
Isabel Furini é escritora e poeta premiada, autora de "Os Corvos de Van Gogh", poemas.

Ambos deram-se as mãos. Estevão, no entanto, havia perdido muito sangue e desmaiou. Foi acordar num quarto simples, da casa de um lenhador que por acaso passara por onde ele se encontrava na floresta e, ao vê-lo ferido, decidiu a ajudá-lo.
Desde esse dia o caçador se fez amigo do Anjo, e o Anjo se fez amigo do homem. O humano sentiu-se tão feliz com seu companheiro celeste que deixou de matar outras criaturas. Agora, sua maior diversão era observar os seres da natureza: ondinas e gnomos, silfos e salamandras. Mostrou também seu mundo a seu amigo: casas e fábricas, lojas e clubes, cinemas, teatros e shoppings. Mas o ser celeste preferia as florestas, as montanhas e os mares, o ruído dos ventos, das ondas e dos pássaros.
O homem e o Anjo sempre permaneciam juntos, e os sensitivos que por acaso os viam, detinham-se perplexos a observá-los: ambos caminhavam juntos, tão serenamente que ninguém sabia se o homem era guiado pelo Anjo ou se o Anjo era guiado pelo homem.
Isabel Furini é escritora e poeta premiada, autora de "Os Corvos de Van Gogh", poemas.

O NERD (Conto)
Todas as sextas-feiras, à tardinha, depois de sair do trabalho, a turma reunia-se no bar da esquina para beber e contar piadas. Arnaldo era o rei. Entre cervejinhas e batatas fritas divertia o grupo, contando piadas com o jeitinho de Ary Toledo.
Essa sexta-feira o escritório estava agitado. Na segunda-feira chegaria um cara novo, indicado pela diretoria. Um novo gerente, inteligente, jovem e inovador.
Segunda-feira de manhã, logo cedo, o estacionamento já estava lotado.
Quando a porta do elevador abriu-se… – Meu Deus! Esse cara foi colega de escola… Nós o chamávamos de nerd… nerd… nerd Ental… “nerdental”!.. Porque era um verdadeiro nerd. Gostava de ler história, arqueologia, filosofia, sei lá, essas baboseiras… Esse cara vai ser o diretor da empresa? Quem diria!..
O dia passou rápido. Arnaldo percorreu todas as escrivaninhas falando: Coitado do Zulmar, o novo diretor, tinha medo de falar com meninas. Coitado do Zulmar, o novo diretor…
Três dias depois, os funcionários foram chamados para falar com o diretor. Quando Zulmar foi dar-lhe a mão, Arnaldo esquivou-se e lhe deu dois soquinhos no ombro para mostrar que era o dono da situação. O diretor, em silêncio, pegou a ficha.
– Há cinco anos que você tem o mesmo cargo.
– Sim, mas se me quer nomear chefe estou disposto a chefiar a empresa – brincou.
– A empresa vai entrar um novo ritmo de trabalho. Lamentavelmente, você não se adapta bem a mudanças.
– Não, não é isso “Nerdental”!.. falou rindo Arnaldo.
O diretor não riu. – Pode passar pelo RH.
– Não, escute, só falei Nerdental para lembrar dos velhos tempos. Não precisa…. não… O diretor, impassível, pediu para a secretária chamar outro funcionário. teve que obedecer e falar com o gerente do RH. Lá começaram os problemas.
– Sabe por que está aqui? – perguntou a psicóloga.
– Sim! – gritou Arnaldo – porque esse nerd miserável, cretino, foi nomeado diretor e se acha o dono do mundo e… Arnaldo ficou quase uma hora falando mal do diretor. A psicóloga entendeu que Arnaldo tinha raiva reprimida, não apreciava o triunfo alheio e tinha problemas de relacionamento.
– Com a turma da cerveja, dou-me muito bem! – gritou o Arnaldo para defender-se.
A psicóloga olhou-o atrás de suas lentes grossas. Predisposição para alcoolismo – escreveu em seu caderno de notas.
Arnaldo foi rebaixado para auxiliar. Começou a freqüentar o bar todos os dias, até que chegou ao trabalho bêbado, quase caiu sobre o computador, derrubou alguns papéis… O chefe do setor falou em despedi-lo, mas o novo diretor, com muita calma, explicou que alcoolismo é doença e pediu para o encarregado ser paciente e falar com o R.H para achar uma solução.
A notícia se espalhou, e todos ficaram comovidos. Comentavam que o novo diretor era um homem justo e queria ajudar os funcionários problemáticos.
– Esse cara é um vitorioso, comentavam os funcionários.
Uma noite, Arnaldo chegou à casa de sua irmã, quase bêbado e gritou durante vinte minutos seu ódio contra o novo diretor da empresa.
Paulino, o cunhado, tranqüilo, disse para Arnaldo aceitar a realidade. – Talvez o novo diretor o esteja sacaneando. Se o diretor tem um plano para prejudicá-lo, ele o está fazendo com tanta classe, que ninguém enxerga a verdade. Arnaldo, você deveria seguir o que falam as pessoas bem sucedidas. Não conhece essa frase do famoso empresário Bill G., que está rolando na Internet?
– Não!.. Qual frase?
– Bill G. disse para um grupo de estudantes: “Nunca zombe de um nerd, pois um deles será seu chefe”.
Isabel Furini é escritora e poeta premiada.
Essa sexta-feira o escritório estava agitado. Na segunda-feira chegaria um cara novo, indicado pela diretoria. Um novo gerente, inteligente, jovem e inovador.
Segunda-feira de manhã, logo cedo, o estacionamento já estava lotado.
Quando a porta do elevador abriu-se… – Meu Deus! Esse cara foi colega de escola… Nós o chamávamos de nerd… nerd… nerd Ental… “nerdental”!.. Porque era um verdadeiro nerd. Gostava de ler história, arqueologia, filosofia, sei lá, essas baboseiras… Esse cara vai ser o diretor da empresa? Quem diria!..
O dia passou rápido. Arnaldo percorreu todas as escrivaninhas falando: Coitado do Zulmar, o novo diretor, tinha medo de falar com meninas. Coitado do Zulmar, o novo diretor…
Três dias depois, os funcionários foram chamados para falar com o diretor. Quando Zulmar foi dar-lhe a mão, Arnaldo esquivou-se e lhe deu dois soquinhos no ombro para mostrar que era o dono da situação. O diretor, em silêncio, pegou a ficha.
– Há cinco anos que você tem o mesmo cargo.
– Sim, mas se me quer nomear chefe estou disposto a chefiar a empresa – brincou.
– A empresa vai entrar um novo ritmo de trabalho. Lamentavelmente, você não se adapta bem a mudanças.
– Não, não é isso “Nerdental”!.. falou rindo Arnaldo.
O diretor não riu. – Pode passar pelo RH.
– Não, escute, só falei Nerdental para lembrar dos velhos tempos. Não precisa…. não… O diretor, impassível, pediu para a secretária chamar outro funcionário. teve que obedecer e falar com o gerente do RH. Lá começaram os problemas.
– Sabe por que está aqui? – perguntou a psicóloga.
– Sim! – gritou Arnaldo – porque esse nerd miserável, cretino, foi nomeado diretor e se acha o dono do mundo e… Arnaldo ficou quase uma hora falando mal do diretor. A psicóloga entendeu que Arnaldo tinha raiva reprimida, não apreciava o triunfo alheio e tinha problemas de relacionamento.
– Com a turma da cerveja, dou-me muito bem! – gritou o Arnaldo para defender-se.
A psicóloga olhou-o atrás de suas lentes grossas. Predisposição para alcoolismo – escreveu em seu caderno de notas.
Arnaldo foi rebaixado para auxiliar. Começou a freqüentar o bar todos os dias, até que chegou ao trabalho bêbado, quase caiu sobre o computador, derrubou alguns papéis… O chefe do setor falou em despedi-lo, mas o novo diretor, com muita calma, explicou que alcoolismo é doença e pediu para o encarregado ser paciente e falar com o R.H para achar uma solução.
A notícia se espalhou, e todos ficaram comovidos. Comentavam que o novo diretor era um homem justo e queria ajudar os funcionários problemáticos.
– Esse cara é um vitorioso, comentavam os funcionários.
Uma noite, Arnaldo chegou à casa de sua irmã, quase bêbado e gritou durante vinte minutos seu ódio contra o novo diretor da empresa.
Paulino, o cunhado, tranqüilo, disse para Arnaldo aceitar a realidade. – Talvez o novo diretor o esteja sacaneando. Se o diretor tem um plano para prejudicá-lo, ele o está fazendo com tanta classe, que ninguém enxerga a verdade. Arnaldo, você deveria seguir o que falam as pessoas bem sucedidas. Não conhece essa frase do famoso empresário Bill G., que está rolando na Internet?
– Não!.. Qual frase?
– Bill G. disse para um grupo de estudantes: “Nunca zombe de um nerd, pois um deles será seu chefe”.
Isabel Furini é escritora e poeta premiada.
AMOR UNIVERSAL NA LÍNGUA (Crônica)
É assim como uma amiga chama o fato de escrever frases positivas, repetir, enviar por e-mail, pelo Twitter, pelo Facebook, de maneira quase obsessiva, mas não resistir a uma opinião diferente. Muito amor, muita paz, muita boa vontade, até que alguém expresse uma ideia contrária a deles, nesse momento “o amor universal” que estava na língua cai fora e aparece o verdadeiro eu, com suas raivas, frustrações e limitações.
Pessoalmente acho invasivo alguém bombardear o e-mail e a página nas redes sociais de outra pessoa para divulgar as próprias ideias, sejam religiosas, políticas ou positivas. É o fanatismo de querer impor uma maneira de pensar aos outros. A máscara pode ser o amor universal, mas atrás da máscara está o desejo de impor um determinado ponto de vista.
Isso me faz lembrar uma tira cômica que vi há algum tempo. O primeiro desenho mostra dois grupos de pessoas em lados opostos de uma rua, ambos os grupos com cartazes dizendo “Paz”. No segundo momento, os dois grupos se encontram e brigam porque cada grupo acha que está divulgando a verdadeira paz.
Enfim, nesta época, além da ditadura da beleza, temos que suportar a ditadura da felicidade… Sim, porque há pessoas que exigem que os outros sejam felizes o tempo todo, como se isso fosse possível. Mas é só mexer um pouquinho na tinta das letras para ver o eu humano, limitado, frágil, impermanentemente buscando o carinho, a aprovação ou simplesmente o aplauso.
* Isabel Furini é escritora e poeta premiada, autora de "Escrevendo Crônicas: Dicas e Truques".
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
Lançamento: Escrevendo Crônicas: Dicas e Truques
Crônica é um gênero literário que desperta o interesse das pessoas por falar de assuntos quotidianos. O Instituto Memória lançará em 29 de outubro, 19 horas, no Palacete dos Leões, Av. João Gualberto, 530, Alto da Glória, Curitiba, o livro "Escrevendo crônicas: dicas e truques. Entrada franca.
quinta-feira, 12 de setembro de 2013
NEGUINHA (conto de Isabel Furini)
Sentou-se no lado direito do túmulo. O dia
estava ensolarado. Não era dia para ir ao cemitério, pensou. Sol é bom para
passeio, para praia, mas ela estava ali,
colocando flores recém-compradas em um vaso grande, de porcelana pintada
de azul e sem água. As flores não iam durar muito. Mas que importa?
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Isabel Furini é escritora e poeta premiada.
Observou
detidamente a fotografia de um homem de queixo quadrado e olhos azuis em um
porta-retrato pequeno, de metal outrora dourado e agora escuro. Olhou de perto.
Quebrou-se uma das pontas do porta-retrato,
eu posso trazer outro, mas não... mortos não reclamam de nada, pensou. Meu pai, meu pai, murmurou com o olhar fixo
na fotografia.
Lembra,
pai? Lembra quando você me chamava de neguinha feia? Lembra disso? Pois eu não
esqueci. Você dizia com sua voz altissonante, parecida com a voz do homem que
vendia sonhos de nata e passava pelo bairro pobre, de chão batido, gritando sob
o sol do meio-dia: Sonhos, sonhos baratos.
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Neguinha
feia! Menina, você está cada dia mais negra, mais magra e mais feia, repetia aos
gritos, cuspindo saliva pelos cantos da boca. E que vergonha você sentia da
Neguinha feia, não é verdade, pai? Tinha vergonha sim. Tinha vergonha de
apresentar sua filha negra a seus parentes de olhos azuis e cabelos mais ou
menos loiros. Mamãe colocava um vestidinho branco e minhas primas loiras riam
de mim, dizendo: Parece mais negra ainda. Parece piche. Parece noite escura.
Parece jabuticaba. E você escutava e ria. Ria de mim.
Que
pai honesto ri da própria filha? E depois, como bom homem, ainda enchia a boca
de saliva ao dizer: Não sou racista, casei com uma negra. Casou sim, foi porque
eu ia nascer e o avô pediu ajuda ao Xangô. Foi porque você estava com febre
alta e não sabia nem o que dizia. Foi porque o tio te arrastou até a igreja e
ordenou ao padre que fizesse a cerimônia!...
Forte
o tio Chico. Todo mundo o respeitava. Todos fugiam quando seus olhos se
incendiavam de raiva. Até você teve medo dele, pai. Até você!... E hoje você
não tem mais medo de nada. Está ai, na terra desse cemitério, em um túmulo sem
flores. E eu vim para te visitar, pai. Trouxe algumas flores só para demonstrar
que sou boa filha.
Escutou
alguém chorar. Virou a cabeça. Uma mulher estava diante do túmulo de mármore
branco, bem perto dela. Não sou a única que sofre, murmurou.
Trouxe
flores, sim. Mas eu não vim pelas flores, não! Estou aqui para dizer que não
precisa mais ter vergonha de mim pai. Pois agora eu sou uma das vozes do Brasil,
pai. Você morreu sem saber, que pena que morreu sem saber. Mas eu vou te
contar, eu herdei a voz da avó Eugênia, a primeira mulher do avô. Aquela que
fugiu com o mestre-sala de escola de samba. Eu sou uma cantora negra, pai.
Todos gostam de mim. Enquanto minhas
primas brancas trabalham de segunda a sábado, vendendo roupas chiques para as
branquelas ricas, eu sou famosa, pai. Eu vou comprar os vestidos que elas
vendem e que não podem comprar. E elas me olham com inveja. Elas têm inveja da Neguinha feia, da Neguinha
de cor de piche. Sabe por que, pai? Porque eu sou uma guerreira. Eu triunfei pai.
Eu sou negra e vencedora e tenho tanto orgulho disso!... É isso aí, pai. Eu sou negra e tenho orgulho
de ser negra.
A POLÊMICA DOS BEST- SELLERS!..
Ler ou não ler best-sellers? Eis a questão!... A polêmica é longa e acirrada. Amantes de detratores dos best-sellers se enfrentam nas arenas dos pontos de vista.
Há pessoas que sentem orgulho em ler best-sellers, outras sentem vergonha e o escondem no quarto para deleitar-se lendo algumas páginas antes de dormir, e ainda há aqueles que odeiam os best-sellers, mas odeiam mesmo!... Jamais lêem.
Alguns leitores declaram que esses livros ocupam espaços nas prateleiras das livrarias que poderiam ser ocupados por livros de maior valor literário, pensam que se não existissem os best-sellers as pessoas passariam a ler Ulisses ou Grande Sertão Veredas. Estamos de acordo em que os livros populares ganham os lugares mais visíveis e destacados das livrarias e que, se fossem colocados outros livros nesses locais, ficariam em destaque, o que aumentaria suas chances de vendas. Mas também devemos entender que existem vários tipos de leitores.
Uma pessoa acostumada a uma leitura rápida e descomprometida como um best-seller, raramente vai gostar de livros com maior profundidade, como o Ulisses de Joyce ou Vidas Secas de Graciliano Ramos. O importante é entender que as pessoas procuram coisas diferentes quando escolhem livros de ficção, uns procuram conhecimentos sobre a vida, análise profunda de personagens e de situações, enquanto outros só querem um momento de entretenimento, algo que os tire da monotonia do cotidiano.
Luiz Fernando Veríssimo disse, em uma palestra, com seu humor característico, que é bom as pessoas entrarem nas livrarias para comprar best-sellers, pois, de repente, um livro dele pode estar ao lado e a pessoa pode adquiri-lo também.
O best-seller é só leitura para entretenimento e, desse ponto de vista, é um passatempo sadio. Na realidade, parece que a alternativa é ler best-seller ou nadinha. A maioria está de acordo em que a primeira opção é a melhor.
Porque ler é sempre uma maneira de enriquecer nosso mundo, você não acha?
Isabel Furini é escritora, palestrante e poeta premiada. Contato (41) 8813-9276.
terça-feira, 27 de agosto de 2013
PALAVRAS DA ARTISTA E DA DIARISTA
Era uma reunião como tantas outras. Mulheres falando,
homens grudados aos copos de cerveja, jovens falando de música e crianças
correndo. Numa dessas conversas escutei alguém dizer a uma senhora idosa:
“Somos um grupo de artistas plásticas que nos reunimos uma vez na semana, e
algumas também escrevem poesia”. Gostei da ideia, fiz várias perguntas e ela
respondia com entusiasmo. - Pintam pior do que macacos - disse o marido dela
rindo. Ele é um piadista, esclareceu a
mulher.
Na terça-feira fui até o atelier. Subi a escada e no
primeiro andar vi várias portas fechadas. Qual seria? Perguntei a um rapaz que caminhava pelo
corredor com uma carta na mão. - Não conheço artistas plásticas neste prédio,
respondeu.
- Elas se reúnem só uma vez na semana.
- Ah! Você disse artistas? Artistas! Hahaha. É um grupo
de velhas gagás. É na última porta, do lado direito.
Caminhei até o final do corredor, bati à porta e abriram,
lá estavam as idosas. Desculpem, lá estavam as artistas plásticas. Nesse
momento a frase do marido da Teresa, “pintam pior do que macacos”, não me
pareceu uma piada, pareceu-me um simples comentário. E a declamação de
poemas... Céus! Melhor nem falar. Olhei para a professora de pintura, tinha um
sorriso de bonomia no rosto, como quem diz: fazer o quê? A professora disse que
o importante na terceira idade é fazer algo para manter-se ativo, para
manter-se jovem. Elas não eram artistas, mas se sentiam artistas.
Eu acho interessante a pessoa dedicar o seu tempo a
praticar alguma arte. Mas penso que um pouco de humildade daria brilho a esses
quadros, porque é muita pretensão falar “somos um grupo de artistas plásticas que se reúne uma
vez na semana”, seria melhor dizer:
somos um grupo de interessadas em arte, ou de aprendizes, ou de alunas
de arte. Porque “artista”, essa palavra para mim (talvez seja só para mim) tem
uma conotação de certo grau de domínio de alguma das artes, e os trabalhos eram
de aprendizes. Essa é minha opinião. Mas como disse minha diarista “opinião é
como bunda, cada um tem a sua”.
Isabel Furini é
escritora e palestrante. Organizou a antologia Passageiros do Espelho, que será lançada em 26 de julho, as 19:00
horas no Espaço cultural do BRDE Palacete dos Leões, João Gualberto, 530,
Curitiba.
Jimmy é um primata que vive no zoológico de Niterói e que curte pintar quadros. Seu trabalho foi exposto na mostra Olhares de um Chimpanzé. A exposição aconteceu na Galeria 52 (Niterói).
Jimmy é um primata que vive no zoológico de Niterói e que curte pintar quadros. Seu trabalho foi exposto na mostra Olhares de um Chimpanzé. A exposição aconteceu na Galeria 52 (Niterói).
Línguas viperinas (Crônica)
Minha amiga J. adora bons restaurantes. E quem não adora?... O problema é que minha amiga gasta a maior parte de seu polpudo salário em restaurantes. Ha quatro meses ele decidiu mudar. Iniciou um regime. Continuava frequentando restaurantes chiques, mas em vez de pedir carnes e massas, começou a se conformar com saladas e alguma carne magra de frango ou de peixe. E os resultados começaram já estavam presente no primeiro mês. Aquele início tímido, poucos notado pelos outros, mas notado pela roupa que passa de apertada a um pouco folgada. E como dá alegria!
Pois bem, amiga ligou, convidou-me para almoçar em um shopping. Nos encontramos lá, olhamos lojas e depois fomos até a praça da alimentação. Ela, orgulhosa, só colocou no prato frango grelhado e salada variada. Na mesa do lado havia uma senhora sentada olhando para o prato de minha amiga. Mexia a cabeça para um lado e para outro com ar de reprovação. O que seria?
De repente, com voz de mãe autoritária dirigiu-se a minha amiga dizendo: “Não adianta querida, já não adianta, não vai dar resultado, você deveria ter pensado antes... agora é obesa não tem mais nada para fazer”. Depois dessa frase maldosa, levantou-se e saiu como de cabeça erguida, orgulhosa de seu ato de maldade.
Minha amiga olhou o prato, observou a própria barriga proeminente, e eu percebi que seus olhos se enchiam de lágrimas.
Tentei animá-la: - Deixe falar, nem se preocupe. E ela secou a lágrimas e sorriu – foi um sorriso forçado.
Antes de sair do shopping comprou um bombom e o deglutiu com prazer. Dias depois, ligou dizendo que não valia a pena fazer regime... só cirurgia de estômago podia ser uma solução. – Mas você estava indo tão bem! Exclamei.
– Não sei não, disse ela, a mulher do restaurante tem razão não regimes não dão resultado.
Minha primeira reação foi dizer que a mulher do restaurante, essa cobra com forma humana, deveria olhar para a própria vida, em vez de meter o nariz onde não é chamada. Eu deveria ter jogado o prato na cabeça dela – falei para minha amiga e ela riu.
Ao desligar fiquei pensando o que ganham essas pessoas de língua viperina que estão sempre procurando humilhar, ofender, e fazer desistir a quem tem um objetivo. Será que antes de dormir contabilizam os danos provocados com suas palavras e gritam:
- Hoje consegui destruir três pessoas. Uauu! Eu sou demais! Qual será o triste dividendo que essas pessoas estão ganhando?..
Isabel Furini orienta oficinas literárias no Solar do Rosário -Fone (41)3225-6232.
É autora de "O Livro do Escritor" da editora Instituto Memória.
Pois bem, amiga ligou, convidou-me para almoçar em um shopping. Nos encontramos lá, olhamos lojas e depois fomos até a praça da alimentação. Ela, orgulhosa, só colocou no prato frango grelhado e salada variada. Na mesa do lado havia uma senhora sentada olhando para o prato de minha amiga. Mexia a cabeça para um lado e para outro com ar de reprovação. O que seria?
De repente, com voz de mãe autoritária dirigiu-se a minha amiga dizendo: “Não adianta querida, já não adianta, não vai dar resultado, você deveria ter pensado antes... agora é obesa não tem mais nada para fazer”. Depois dessa frase maldosa, levantou-se e saiu como de cabeça erguida, orgulhosa de seu ato de maldade.
Minha amiga olhou o prato, observou a própria barriga proeminente, e eu percebi que seus olhos se enchiam de lágrimas.
Tentei animá-la: - Deixe falar, nem se preocupe. E ela secou a lágrimas e sorriu – foi um sorriso forçado.
Antes de sair do shopping comprou um bombom e o deglutiu com prazer. Dias depois, ligou dizendo que não valia a pena fazer regime... só cirurgia de estômago podia ser uma solução. – Mas você estava indo tão bem! Exclamei.
– Não sei não, disse ela, a mulher do restaurante tem razão não regimes não dão resultado.
Minha primeira reação foi dizer que a mulher do restaurante, essa cobra com forma humana, deveria olhar para a própria vida, em vez de meter o nariz onde não é chamada. Eu deveria ter jogado o prato na cabeça dela – falei para minha amiga e ela riu.
Ao desligar fiquei pensando o que ganham essas pessoas de língua viperina que estão sempre procurando humilhar, ofender, e fazer desistir a quem tem um objetivo. Será que antes de dormir contabilizam os danos provocados com suas palavras e gritam:
- Hoje consegui destruir três pessoas. Uauu! Eu sou demais! Qual será o triste dividendo que essas pessoas estão ganhando?..
Isabel Furini orienta oficinas literárias no Solar do Rosário -Fone (41)3225-6232.
É autora de "O Livro do Escritor" da editora Instituto Memória.
Um quadro do famoso Botero
Morei na Colômbia entre 1975 e 1980. Eu ministrava aulas na cidade de Medellín, e lá tive oportunidade de conhecer várias pessoas interessantes. Uma delas pintava por hobby, como bem ela dizia: "Seu objetivo era sentir-se bem; não queria participar de concursos nem expor suas obras, pois isso a deixaria preocupada". Já a sua amiga tinha o hobby de viajar. As duas chegavam cedo para aulas, e tínhamos a oportunidade de conversar. Elas estavam sempre de alto-astral.
Um dia, a artista plástica disse que sua amiga havia feito uma burrice da qual sempre se arrependia. A outra riu e contou o fato. Quando era solteira, ela foi vizinha do Fernando Botero, o grande pintor colombiano, cujo estilo único é chamado de "boterismo", e consiste em dar volume às figuras. Elas são desproporcionadas se a compararmos com pessoas e objetos reais, mas têm simetria entre elas. Todos os personagens dos quadros são obesos, mulheres, homens, crianças e até os animais, gatos, cavalos e outros.
Pois bem, naquela época o artista era um iniciante. Um dia, falando com Botero na porta da casa, ela comentou que naquela semana era o seu aniversário. Ele, muito generoso, disse que a presentearia com um quadro. Minha aluna, que não gostava dos quadros do novato, desculpou-se alegando que não tinha espaço na sala para colocar o quadro. Botero retrucou que podia colocar em qualquer lugar da casa, mas ela se justificou que tinha falta de espaço e que sua mãe estava pensando em reformar a casa.
– Como eu sou burra! – disse ao terminar a história. Se eu tivesse aceitado esse quadro a que preço poderia vendê-lo agora que ele é famoso?
Essa lição é muito interessante. Nunca sabemos quando um artista triunfará ou desistirá, ficará famoso ou cairá no esquecimento.
Aprendemos uma lição: nunca desprezar a obra de um iniciante, com o tempo ele pode ser um novo Botero.
Isabel Furini é escritora e palestrante. Autora de "O Livro do Escritor" da editora Instituto Memória. Contato:(412) 8813-9276, e-mail: isabelfurini@hotmail.com
Quadro de Fernando Botero.
Um dia, a artista plástica disse que sua amiga havia feito uma burrice da qual sempre se arrependia. A outra riu e contou o fato. Quando era solteira, ela foi vizinha do Fernando Botero, o grande pintor colombiano, cujo estilo único é chamado de "boterismo", e consiste em dar volume às figuras. Elas são desproporcionadas se a compararmos com pessoas e objetos reais, mas têm simetria entre elas. Todos os personagens dos quadros são obesos, mulheres, homens, crianças e até os animais, gatos, cavalos e outros.
Pois bem, naquela época o artista era um iniciante. Um dia, falando com Botero na porta da casa, ela comentou que naquela semana era o seu aniversário. Ele, muito generoso, disse que a presentearia com um quadro. Minha aluna, que não gostava dos quadros do novato, desculpou-se alegando que não tinha espaço na sala para colocar o quadro. Botero retrucou que podia colocar em qualquer lugar da casa, mas ela se justificou que tinha falta de espaço e que sua mãe estava pensando em reformar a casa.
– Como eu sou burra! – disse ao terminar a história. Se eu tivesse aceitado esse quadro a que preço poderia vendê-lo agora que ele é famoso?
Essa lição é muito interessante. Nunca sabemos quando um artista triunfará ou desistirá, ficará famoso ou cairá no esquecimento.
Aprendemos uma lição: nunca desprezar a obra de um iniciante, com o tempo ele pode ser um novo Botero.
Isabel Furini é escritora e palestrante. Autora de "O Livro do Escritor" da editora Instituto Memória. Contato:(412) 8813-9276, e-mail: isabelfurini@hotmail.com
Quadro de Fernando Botero.
sábado, 10 de agosto de 2013
Exposição "Don Quijote de la Mancha" no Instituto Cervantes de Curitiba
Exposição de Arte e Literatura
"DON QUIJOTE DE LA MANCHA"
Curadoria: Carlos Zemek
Abertura: 14 de agosto/13 – 19 horas .
Local: Instituto Cervantes - Rua Ubaldino do Amaral, 927 - Alto da Glória, Curitiba.
O curador Carlos Zemek, nesta oportunidade, escolheu o famoso personagem “Don Quijote de la Mancha”, criação do genial escritor espanhol Miguel de Cervantes. O local escolhido foi o Instituto Cervantes, rua Ubaldino do Amaral, 927, Alto da XV, Curitiba.
Os artistas trabalharam a visão pessoal do livro. Os moinhos de vento são destaque de várias telas, mas também está presente o amor de Don Quixote pela bela Dulcineia e a visão da dança espanhola como reveladora do espírito lúdico e idealista do Quixote.
Carlos Zemek reúne trabalhos de artistas plásticos, fotógrafos, poetas e escritores, além de um de dança flamenca. O convidado especial é reconhecido artista Rogério Dias, quem já tem vários quadros inspirados nesse personagem.
Foram convidados também os artistas plásticos: Alexandre Bozza, Carlos Zemek, Celia Dunker, Ivaní Silva, J. Bonatto, Mercedes Brandão, Neiva Passuelo, Sandoval Tibúrcio, Valéria Sípoli e Vanice Ferreira.
Da área de litertura são expostos poemas com arte digital de: Ally Simões, Eduardo Bettega, Eliziane Nicolao, Elizabeth Inêz Espinosa, Isabel Furini, José Feldman, Lindsay Colle, María Manetti,Willians Mendonça. O convidado especial para realizar a leitura dos poemas é o ator de teatro e televisão Gerson Delliano.
A dança flamenca estará a cargo das professoras do Instituto Flamenco Brasileiro de Arte de Cultura de Curitiba. Também foi convidado o fotógrafo Neni Glock.
Carlos Zemek afirma que é no evento é trabalhado o espírito idealista.
Título da exposição “Don Quijote de la Mancha”
Vernissage: 14 de agosto, 19 horas.
Local: Instituto Cervantes, rua Ubaldino do Amaral, 927. Curitiba.
Entrada franca
sexta-feira, 26 de julho de 2013
ESCÂNDALO NO PRÉDIO (Crônica)
As mulheres do prédio
estavam reunidas na recepção. Todas falando ao mesmo tempo. Esperavam a
síndica. Ela chegou minutos depois. Calmamente perguntou qual era a causa daquela
agitação toda.
- O primeiro andar tem
um grande terraço... - disse dona Manoela.
- E sempre alguém está
tomando sol nesse terraço! - enfatizou Vanessa, que estava sentada com a filha
de dois anos no colo.
- Não tem nada de
errado tomar sol no terraço. Isso não é proibido - disse a síndica.
- Conte, conte, dona
Cidinha - incentivou-a Manoela.
- Mas hoje eu vi... Eu
estava olhando pela janela, não estava espionando, não. Hoje eu estava olhando inocentemente pela
janela quando vi... - dona Cidinha cobriu o rosto com as mãos e disse descendo
a voz: - Vi um homem nu tomando sol no terraço do primeiro andar.
- Era seu Inácio? -
perguntou Rosalba, uma antiga moradora.
- Aquele velho contador
aposentado tomando sol nu no terraço? - perguntou a síndica.
- Que horror! - disse
gritou Manoela.
- Não! Não era ele, não!
Era esse sobrinho, esse jovem alto e moreno, parecido com o Rodrigo Santoro.
- Ahhhh! Uauuuu! E
outras exclamações surgiram dos lábios das mulheres.
- Aquele rapaz estava
tomando sol nu no terraço? Por favor, dona Cidinha, a próxima vez que isso acontecer,
me chame imediatamente - disse a síndica - eu quero tirar algumas fotografias
daquele gatão nudista!
Isabel Furini é palestrante e escritora, orienta a Oficina Como Escrever Livros no
Solar do Rosário.
e-mail: isabelfurini@hotmail.com
quinta-feira, 25 de julho de 2013
MUDANDO A PERSPECTIVA
Em
literatura há uma técnica chamada “mudança de perspectiva”. Os personagens
falam, ou pensam, ou algo acontece, e o leitor descobre uma nova perspectiva de
um assunto. É muito interessante descobrir que isso é simplesmente uma maneira
de levar a visão do homem para o universo literário. Muitas vezes nossa
perspectiva sobre um assunto muda ao conhecer algum fato, ou descobrimos que
sustentávamos uma visão errada sobre uma pessoa.
Lamentavelmente
o ser humano não tem raio-x para ver os pensamentos dos outros. Somos
facilmente enganados pelas aparências. Um rosto bondoso pode ser na realidade
uma máscara para não despertar suspeitas. O sorriso pode esconder raiva ou
ressentimento. O olhar doce pode não ser espontâneo, pode ser resultado de
algum curso de teatro. A elegância nas palavras, às vezes, nasce da artimanha
de seduzir os outros. Além disso, temos os chamados “sintagmas significativos”,
ou seja, palavras ou frases que podem ser usadas com a finalidade de manipular
os outros.
Em
um mundo no qual a imagem impera, nunca sabemos se quando alguém fala de seu
passado está revelando uma verdade escondida, ou está criando uma imagem para
ser aceito, amado ou aplaudido. Só conseguimos ver a cor da pele, dos olhos,
dos cabelos, não conseguimos saber quais são as intenções das pessoas.
E, como nada é tão horrível ao mundo
contemporâneo quanto à honestidade, usamos máscaras. Se as coisas continuarem
desse jeito, corremos o perigo de chegar em casa depois de uma festa na qual
mentimos – desculpem, fomos gentis e dissemos que os doces dos quais não
gostamos eram maravilhosos, excelente o livro recém lançado por algum autor que
desprezamos em silêncio, além de elogiar o horrível vestido da anfitriã, chegar
em casa e caminhar até o espelho para tirar a máscara e descobrir que sob essa
máscara há outra. Tirar a segunda máscara e descobrir mais uma... Ao final,
quem poderá dizer que conhece o seu rosto autêntico?
Isabel Furini é escritora e poeta
premiada. Autora do livro de poemas “Os Corvos de Van Gogh”. Contato: isabelfurini@hotmail.com
sábado, 20 de julho de 2013
AGENTE SECRETO OU TRAFICANTE??? (Crônica)
O vendedor bonitão dizia “eu sobrevivo dos seios das mulheres”. E era verdade, vendia sutiã. O rapaz inteligente dizia que era garoto de programas... de programas de computador... esclarecia.
Mas um dos casos mais interessantes que escutei foi contado por Janice. Janice conheceu Bento em um barzinho. Ela é secretária e perguntou qual era o trabalho dele. Bento só respondeu: eu faço o trabalho sujo, alguém tem que fazer.
Mas um dos casos mais interessantes que escutei foi contado por Janice. Janice conheceu Bento em um barzinho. Ela é secretária e perguntou qual era o trabalho dele. Bento só respondeu: eu faço o trabalho sujo, alguém tem que fazer.
Janice ficou impactada com a resposta e pelos músculos do rapaz. Saíram várias vezes. Ele sempre levava uma mala preta, pequena, de couro e Janice se perguntava que tipo de arma levaria lá dentro. Seria agente secreto ou traficante?
Janice convidou-o a jantar na sua casa. Entraram e Janice apresentou sua mãe. Dona Laurita, encabulada, desculpou-se dizendo que só havia feito um lanche, pois estava esperando o rapaz da desentupidora. Banheiro entupido é uma tristeza – lamentou-se.
Bento, com um sorriso triunfal, abriu sua maleta preta de couro, tirou luvas compridas de borracha e, colocando-as, falou: Não se preocupe, senhora, pois eu já falei para sua filha, eu faço o trabalho sujo. E desentupiu o banheiro.
Isabel Furini é escritora, palestrante e educadora -
e-mai: isabelfurini@hotmail.com
Janice convidou-o a jantar na sua casa. Entraram e Janice apresentou sua mãe. Dona Laurita, encabulada, desculpou-se dizendo que só havia feito um lanche, pois estava esperando o rapaz da desentupidora. Banheiro entupido é uma tristeza – lamentou-se.
Bento, com um sorriso triunfal, abriu sua maleta preta de couro, tirou luvas compridas de borracha e, colocando-as, falou: Não se preocupe, senhora, pois eu já falei para sua filha, eu faço o trabalho sujo. E desentupiu o banheiro.
Isabel Furini é escritora, palestrante e educadora -
e-mai: isabelfurini@hotmail.com
O PADRE OU O PAI? (Crônica)
Meu amigo Orlando, que também é
argentino e professor, mora em
São Paulo onde ministra cursos e palestras. Uma noite, estava
ministrando uma palestra e bem na primeira fileira estava sentado um senhor de
gravata preta com uma figura enorme de Mickey Mouse em amarelo, que dormitava e havia
deixado cair a cabeça de lado. Quando o orador levantava a voz, o homem abria
os olhos trabalhosamente e voltava a fechá-los.
Meu amigo ficou nervoso e, ao falar
a biografia de Freud, errou e disse duas vezes “o padre de Freud”, em vez de “o
pai de Freud”. Acontece que em espanhol a palavra “padre” tem dois sentidos: de
pai e de pároco de igreja. Depois de dizer o padre de Freud pela terceira vez,
o homem da primeira fileira abriu os olhos e empertigou-se, meu amigo
continuou, mas o homem interrompeu a palestra exclamando: Minha nossa! Isso quer dizer que Freud era filho de um padre? Mas que
história interessante! Conte mais, professor.
Orlando, rindo, desculpou-se, pois
havia errado. Esclareceu que a família de Freud era de origem judaica, mas para
ele foi muito divertido perceber que o homem havia acordado e ficado atento ao
resto da palestra.
Isabel Furini é escritora e poeta premiada - e-mail: isabelfurini@hotmail.com
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Você tem PRECONCEITOS???
Estamos na época em
que as pessoas estão tomando consciência de que preconceitos ofendem os outros
e não têm fundamento. Muito destrutivo é o preconceito racial. Essa postura
absurda de medir as pessoas pela cor da pele.
Outro preconceito é que ser gay é pecado ou doença. A escolha sexual, como a escolha política, religiosa ou profissional, é um direito. As paradas gays, filmes e novelas ajudam as pessoas a diminuir o preconceito.
Existem outros preconceitos menos visíveis, por exemplo, o preconceito contra ateus. O apresentador Datena exteriorizou em um programa de TV, há alguns anos, o seu preconceito, dizendo que “ateus são pessoas sem limites, por isso matam, cometem essas atrocidades”. Mas temos exemplos de pessoas que frequentam igrejas e cometem crimes como, por exemplo, Elize Matsunaga, que matou e esquartejou o seu marido, o dono da Yoki. Muitos fanáticos religiosos também matam em nome de Deus. Ninguém é assassino só por ser ateu, como ninguém é santo só por frequentar uma igreja.
Outro preconceito presente na sociedade contemporânea é contra pessoas obesas. Obesidade é vista como sinônimo de vida não saudável. Uma vizinha que é professora foi chamada pela diretora da escola para falar sobre “o excesso de peso, pois não é saudável”. A professora perguntou-lhe: “Será que os magros não morrem? Só morremos os gordos?”.
O importante é
entender que os preconceitos discriminam pessoas, ofendem, ferem e prejudicam.
Gays e héteros, gordos e magros, lindos e feios, ateus e religiosos, somos
todos humanos. Simplesmente humanos.
Isabel Furini é escritora e orienta oficinas de escrita literária. e-mail: isabelfurini@hotmail.com
CARÊNCIA EMOCIONAL - Arma de dois gumes?
Quando qualquer discussão começa a tomar caminhos inesperados, não é raro alguma das partes dar o grito de guerra: “Você tem carência emocional”. É a frase pronunciada para demolir o adversário. Daí para frente ele perde terreno, às vezes perde o chão completo, enquanto que a pessoa que usa a frase pode se sentar sobre uma montanha de conforto. A luta já está ganha.
Quem não tem uma carência emocional lá, no fundo, bem guardada? Quem é tão amado quanto quer? Quem é tão popular quanto sonha? Quem conseguiu, realmente, realizar todos os seus sonhos? Tem um amante? Fez cirurgia plástica? Come demais? Está gordo? Sente-se velho? Tudo isso pode fazer parte da carência emocional. Quer ser famoso? Quer ser o melhor? Quer aplausos? A origem pode ser a mesma. Quer viver uma grande paixão, ser o dono da rua, ser admirado? Carência emocional também.
Reveste-se de milhares de formas. Da necessidade de sentir-se bonito ao desejo de triunfar profissionalmente, do sonho de ter um filho ao sonho de ser famoso em Hollywood. No fundo, o ser humano tem carência, porque o mundo é caleidoscópico, cheio de formas, cores, conteúdos e sonhos irrealizáveis.
Por isso, na próxima vez que em uma discussão alguém triunfante diga que você age desse jeito porque tem carência emocional, responda que ele deveria tirar a máscara de perfeição e olhar para dentro. E tenha certeza, se ele olhar descobrirá em alguma parte da sua mente a “carência emocional”. Afinal até Platão disse que o Amor, o incrível Amor, é filho do Recurso e da Carência. É só ficar sozinho, olhar-se no espelho da verdade e a carência emocional estará lá... gritando muito perto dos ouvidos.
Isabel Furini é escritora e poeta, e-mail: isabelfurini@hotmail.com,
Quadro do artista plástico Carlos Zemek.
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